Blog destinado a qualquer assunto que possa despertar o interesse de mentes curiosas, tendo Pedro Abelardo (1079 a 1142 d.C.) como patrono e inspirador. Ah, e dedicado a Heloísa, claro.
quarta-feira, 6 de outubro de 2021
Histórias da gente Brasileira: Império - Volume 2
quarta-feira, 12 de maio de 2021
Rivers of Babylon – Um anseio de liberdade
Junto aos rios da
Babilônia nós nos sentamos e choramos com saudade de Sião.
Ali,
nos salgueiros penduramos as nossas harpas;
ali os nossos
captores pediam-nos canções, os nossos opressores exigiam canções
alegres, dizendo: “Cantem para nós uma das canções de
Sião!”
Como poderíamos cantar as canções do Senhor numa
terra estrangeira?
Salmo
137:1-4
Esta é a história de uma descoberta. A descoberta de uma canção. Uma descoberta bastante gradual, surpreendente e, afinal, gratificante. Mais. Gratificante é pouco. Ouso dizer, porque é verdade, tocante. Ao menos pra mim.
Tudo começou quando o Spotify me trouxe uma música que eu não ouvia desde a minha infância e de cuja existência eu nem lembrava mais: Rios da Babilônia, interpretada por Perla.
Grata surpresa, pois se trata de linda música, que entrou imediatamente pra meu acervo de músicas “curtidas”. Puxada por ela, não demorou muito pra que eu me deparasse com sua original: Rivers of Babylon, interpretada pelo grupo Boney M.
Ocorre que eu ouvia essa música em inglês imaginando ouvir o que Perla dizia em sua versão. Não tenho ouvido muito bom, então não entendo o que ouço em inglês a menos que me concentre, e olhe lá. E a verdade é que eu só tinha a oportunidade de ouvir essa música enquanto dirigia, quando era impossível dedicar a qualquer letra a devida atenção. Eu me limitava a pensar: como uma letra tão breguinha pode estar embalada numa música tão linda? Até que me deparei, por acaso, com um vídeo que revelava: essa música, que fez tanta gente dançar quarenta anos atrás, tem a letra extraída de dois salmos da Bíblia! Quando eu fui conferir, tomei um choque! Por que um grupo de estética tão discotheque cantaria um salmo? Conferindo o primeiro salmo citado na letra, a coisa toda tomou outra dimensão pra mim. Mas explicar isso requer um pouco de História.
No continente americano, os negros nunca tiveram muita dificuldade em galgar posições no mundo artístico, ao menos quando a arte em questão é a música. Negro spiritual, gospel, blues, jazz, rock, reggae, samba. A lista é longa. Mas essa aceitação de arte e de artistas negros nada tem a ver com atribuir aos negros, enquanto pessoas, o status de igualdade em relação ao seu público, majoritariamente branco. É que a profissão de artista carrega, desde muitos séculos antes de nós, a marca da subalternidade. Quando separada de suas funções sagradas, ligadas ao culto – pagão ou cristão, tanto faz – a arte sempre esteve a serviço de uma aristocracia opulenta. Músicos, pintores, escultores, arquitetos, não eram artistas no sentido moderno que damos à palavra. Eram serviçais. Estavam mais para artesãos, trabalhando sempre para atender à demanda e ao gosto do nobre que os sustentava, ou que lhes encomendava algum serviço avulso. Na música, especificamente, Beethoven foi o primeiro grande compositor a romper com esse modelo. Ele foi um dos primeiros artistas, isto é, uma pessoa dedicada a usar a arte como meio de expressão pessoal, e a assumir os riscos de se sustentar por conta própria, expondo-se à possibilidade de ver sua arte rejeitada pelo público, cujo gosto poderia destoar do seu.
Ocorre que essa independência artística sempre foi privilégio de poucos. O próprio Beethoven pagou um alto preço – em pobreza e ostracismo – por ela. Nos séculos 19 e 20, os artistas continuaram a ser vistos como serviçais, não mais da nobreza, mas da nova elite, a burguesia. E isso valia, mais que tudo, para os artistas ligados ao entretenimento: músicos, atores e dançarinos. Não era vergonha nenhuma contratar uma banda para animar sua festa, ou uma trupe de atores, ou vê-los atuar no teatro, no cinema, ou ouvir cantores e instrumentistas no rádio ou na vitrola. Mas pessoas “de família” evitavam essas profissões. Isso era coisa pra gente “da vida” ou, na melhor hipótese, para subalternos.
É aqui que nossa canção entra. Ela trata da servidão a que os judeus estavam submetidos em seu exílio na Babilônia. Mas é dos judeus que os intérpretes estão falando? Não parece. Não quando vemos quem são os intérpretes, e como eles se expressam. No vídeo abaixo, chama a atenção a falta de sorriso no semblante da principal vocalista. Na verdade, ninguém sorri. Não é uma música alegre. É um lamento. E uma denúncia. Nós vemos aqui pessoas negras, que tomam para si as dores que outro povo viveu há dois milênios e meio. Em vez do Eufrates ou do Tigre, os famosos rios da Babilônia, poderíamos estar ouvindo falar do Mississípi. Do Missouri, do Rio Grande, do Hudson. Poderia ser o Amazonas, o São Francisco, o rio Paraná, o Tietê, o Paraíba do Sul. Todos os rios em cujas margens tantos milhões trazidos da África já se sentaram e choraram a saudade de sua terra natal, a dureza e a crueldade de seu cativeiro. E de seus captores. Sim, seus captores cristãos, que mais que todos deveriam entender a enormidade do seu crime. Mas não. Seus captores, sem se dar conta de que, nas palavras de seu mais precioso livro, os “homens perversos” agora são eles, pedem que seus cativos cantem pra eles, toquem pra eles, dancem pra eles. “Vocês são bons de ritmo; continuem, nós apreciamos muito sua arte. Mas não ousem, claro, julgar-se iguais a nós”. Primeiro como escravos, depois como serviçais contratados sob demanda, ou mesmo como artistas de sucesso – afinal, cumpriam bem sua função de entreter – a história da música negra na América (toda ela) bem que poderia em grande parte ser resumida desse modo.
Claro que essa é uma interpretação minha. Mas eu passei por uma curiosidade adicional. Mostrei o vídeo e a letra pra minha filha. Do alto de seus meros oito anos, então, ela me disse: “Eles estão falando da escravidão que viveram aqui, depois de capturados na África. Estão falando do que nós fizemos a eles”. Embora o exílio babilônico seja assunto corrente em qualquer escola dominical ou sabatina, não passou pela cabeça de minha filha que aquelas pessoas negras estivessem cantando outra coisa que não suas próprias dores, sofridas sob o jugo da escravidão ou da discriminação.
Uma pesquisa posterior me revelou que essa canção tem origem ainda mais antiga que seu estrondoso sucesso com o grupo Boney M. em 1978. Trata-se de uma composição rastafári jamaicana, o que explica ainda melhor sua vinculação aos temas bíblicos, e é de 1970. Ainda assim, minha leitura, acho, não se invalida. Afinal, essa é a beleza da arte: ela se presta a múltiplas intenções, expressões e impressões. A minha impressão tornou essa canção muito valiosa e, como eu já disse, muito tocante pra mim. E hoje, 12 de maio, véspera da Abolição, tema que me é muito caro, inclusive pela negligência a que a data tem sido relegada em nosso Brasil sem memória histórica, sinto-me ainda mais movido a partilhar o sentido e a beleza que os rios da Babilônia agora me inspiram.
Por amor à brevidade, despeço-me com as palavras do outro salmo citado na canção. Que elas nos mantenham vigilantes, e nos guardem, para sempre, de assumir o papel de perversos opressores de nossos irmãos.
As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, Senhor, rocha minha e redentor meu! – Salmo 19:14
segunda-feira, 11 de maio de 2020
O Capitão América e a França
Os Supremos by Mark MillarMy rating: 5 of 5 stars
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Inferno: O mundo em guerra 1939-1945 by Max HastingsView all my reviews
domingo, 7 de abril de 2019
Fracassos que superam os maiores sucessos
"Sua tragédia foi sua crescente solidão e sua impaciência com quem não podia entender. E se seu desejo de reconciliar gregos e bárbaros acabou em fracasso... Ah... que fracasso! Seu fracasso agigantou-se acima do sucesso dos outros homens.
"Eu vivi... eu vivi uma vida longa, Cadmo, mas a glória e a memória do homem pertencerão sempre àqueles que perseguem seus grandes sonhos. E o maior deles é o homem que agora chamam de Μέγας Αλέξανδρος, o maior Alexandre de todos." - Ptolemeu I Sóter (em Alexandre, filme de Oliver Stone - 2004)
terça-feira, 8 de novembro de 2016
Review: O Grande Conflito
O Grande Conflito by Ellen G. WhiteMy rating: 5 of 5 stars
Relato chocante e tocante da história da cristandade, complementado com pesada escatologia. Requer alguma fibra emocional e intelectual pra ser lido.
Ellen G. White consta de várias listas de mulheres mais influentes da história americana. Pioneira da Igreja Adventista do Sétimo Dia, líder intelectual e espiritual, tida como profetisa pela igreja que ajudou a fundar e organizar. De todos os seus livros, este é sem dúvida o mais influente, tanto para adventistas quanto para os que não partilham da fé que eles professam.
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domingo, 2 de outubro de 2016
Review: Como Jesus se tornou Deus
My rating: 5 of 5 stars
Pra alguém que ama História como eu, este é um livro difícil de largar. Seus relatos vívidos, seus comentários sagazes, suas expressões hilárias (como assim, "a ascensão física de um corpo real ossudo e comedor de peixe"?!), sua fartura de citações contemporâneas aos fatos discutidos, tudo contribui para tornar prazerosa sua leitura.
Ao contrário de "Jesus: A Biografia" (http://abelardicas.blogspot.com.br/20...), esta é obra de um descrente. Como tal, pode doer nas almas mais sensíveis, que não admitem nenhuma insinuação de que Jesus seja qualquer outra coisa senão Deus em sua plenitude. Mas é um livro respeitoso. Claro, fundamentalistas consideram respeitoso apenas o que reforça suas crenças. Estes se sentirão desrespeitados. Não é o meu caso.
Não quero entregar o conteúdo, mas preciso pontuar um aspecto que me saltou aos olhos. A vastíssima maioria do cristianismo atual abraça e defende a doutrina da Trindade, considerando-a ponto central e inegociável de sua fé. Mas, é claro, sempre houve e sempre haverá os que acreditam diferente, por achar que tal doutrina corrompe e afronta o monoteísmo, roubando de Deus a singularidade de sua glória. Longe de mim dizer quem tem razão. No entanto, ler de um não cristão como a crença na deidade plena de Jesus se desenvolveu ao longo do tempo reforçou em mim uma convicção antiga: a alternativa seria rasgar as Escrituras.
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sábado, 17 de setembro de 2016
Jesus: A Biografia
Jesus: A Biografia by Jean-Christian PetitfilsMy rating: 5 of 5 stars
O livro me surpreendeu logo de cara. Trata-se de um estudo profundamente erudito acerca do Jesus histórico, mas, inesperadamente pra mim, escrito por um homem que crê no Jesus teológico.
Concluída a leitura, minha surpresa inicial transformou-se quase em gratidão. O autor foi capaz de defender com enorme competência a historicidade dos evangelhos, especialmente o de João (mais uma surpresa!), dissipando a pesada bruma de lenda e mito que nos últimos séculos as mentes mais céticas fizeram baixar sobre essas narrativas, a ponto de tornar razoável duvidar até da mera existência de Jesus.
O historiador ainda se atreve a demonstrar que, dentre tantas relíquias supostamente ligadas a Jesus, três merecem o selo de autenticidade: o sudário de Turim (o Santo Sudário), o sudário de Oviedo e a túnica de Argenteuil. A crer no escritor, cristão nenhum precisa temer pela realidade material e histórica do Cristo, da qual há evidência concreta, visível, passível de estudo e capaz de resistir às análises mais rigorosas. Um tesouro para o estudante de história; um alento à fé.
Por falar em fé, se a sua depende de crer na infalibilidade textual dos evangelhos, ou da Bíblia inteira, fique longe de um livro como este: o historiador não hesita em apontar falhas e contradições, internas e externas, do texto sagrado. Internas, as que fazem um evangelista desmentir outro; externas as que são desmentidas pela história. Quem entende bem o conceito de inspiração sabe que isso é mais que natural. Da minha parte, tais ressalvas apenas tornam mais críveis tanto este livro quanto os próprio evangelhos.
Minha única queixa: a tradução. A Benvirá precisa fazer um cuidadoso trabalho de revisão para reimpressões e edições futuras se não quiser comprometer a credibilidade de uma obra tão valiosa e da própria editora.
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