Junto aos rios da
Babilônia nós nos sentamos e choramos com saudade de Sião.
Ali,
nos salgueiros penduramos as nossas harpas;
ali os nossos
captores pediam-nos canções, os nossos opressores exigiam canções
alegres, dizendo: “Cantem para nós uma das canções de
Sião!”
Como poderíamos cantar as canções do Senhor numa
terra estrangeira?
Salmo
137:1-4
Esta é a história de uma descoberta. A
descoberta de uma canção. Uma descoberta bastante gradual,
surpreendente e, afinal, gratificante. Mais. Gratificante é pouco.
Ouso dizer, porque é verdade, tocante. Ao menos pra mim.
Tudo começou quando o Spotify
me trouxe uma música que eu não ouvia desde a minha infância
e de cuja existência eu nem lembrava mais: Rios da Babilônia, interpretada por Perla.
Grata surpresa, pois se trata de linda música,
que entrou imediatamente pra meu acervo de músicas “curtidas”.
Puxada por ela, não demorou muito pra que eu me deparasse com sua
original: Rivers
of Babylon,
interpretada pelo grupo Boney M.
Ocorre que eu ouvia essa música em inglês
imaginando ouvir o que Perla dizia em sua versão. Não tenho ouvido
muito bom, então não entendo o que ouço em inglês a menos que me
concentre, e olhe lá. E a verdade é que eu só tinha a oportunidade
de ouvir essa música enquanto dirigia, quando era impossível
dedicar a qualquer letra a devida atenção. Eu me limitava a pensar:
como uma letra tão breguinha pode estar embalada numa música tão
linda? Até que me deparei, por acaso, com um vídeo que revelava:
essa música, que fez tanta gente dançar quarenta anos atrás, tem a
letra extraída de dois salmos da Bíblia! Quando eu fui conferir,
tomei um choque! Por que um grupo de estética tão discotheque
cantaria um salmo? Conferindo o primeiro salmo citado na letra, a
coisa toda tomou outra dimensão pra mim. Mas explicar isso requer um
pouco de História.
No continente americano, os negros nunca tiveram
muita dificuldade em galgar posições no mundo artístico, ao menos
quando a arte em questão é a música. Negro spiritual,
gospel, blues, jazz, rock, reggae, samba. A lista é longa. Mas essa
aceitação de arte e de artistas negros nada tem a ver com atribuir
aos negros, enquanto pessoas,
o status de igualdade em relação ao seu público, majoritariamente
branco. É que a profissão de artista carrega, desde muitos séculos antes de nós, a marca da subalternidade. Quando separada de suas
funções sagradas, ligadas ao culto – pagão ou cristão, tanto
faz – a arte sempre esteve a serviço
de
uma aristocracia opulenta. Músicos, pintores, escultores,
arquitetos, não eram artistas
no
sentido moderno que damos à
palavra. Eram serviçais.
Estavam mais para artesãos, trabalhando sempre para atender à
demanda e ao gosto
do
nobre que os sustentava, ou que lhes encomendava algum serviço
avulso. Na música, especificamente, Beethoven foi o primeiro grande
compositor a romper com esse modelo. Ele foi um dos primeiros
artistas,
isto é, uma pessoa dedicada a usar a arte como meio de expressão
pessoal,
e a assumir os riscos de se sustentar por conta própria, expondo-se
à possibilidade de ver sua arte rejeitada pelo público, cujo
gosto poderia destoar do seu.
Ocorre
que essa independência artística sempre foi privilégio de poucos.
O próprio Beethoven pagou um alto preço – em pobreza e ostracismo
– por ela. Nos séculos 19 e 20, os artistas continuaram a ser
vistos como serviçais, não mais da nobreza, mas da nova elite, a
burguesia. E isso valia, mais que tudo, para os artistas ligados ao
entretenimento: músicos, atores e dançarinos. Não era vergonha
nenhuma contratar uma banda para animar sua festa, ou uma trupe de
atores, ou vê-los atuar no teatro, no cinema, ou ouvir cantores e
instrumentistas no rádio ou na vitrola. Mas pessoas “de família”
evitavam essas profissões. Isso era coisa pra gente “da vida”
ou, na melhor hipótese, para subalternos.
É
aqui que nossa canção entra. Ela trata da servidão a que os judeus
estavam submetidos em seu exílio na Babilônia. Mas é dos judeus
que os intérpretes estão falando? Não parece. Não quando vemos
quem são os
intérpretes, e como eles se expressam. No vídeo abaixo, chama a
atenção a falta de sorriso no semblante da principal vocalista. Na
verdade, ninguém sorri. Não é uma música alegre. É um lamento. E
uma denúncia. Nós vemos aqui pessoas negras, que tomam para si as
dores que outro povo viveu há dois milênios e meio. Em vez do
Eufrates ou do Tigre, os famosos rios da Babilônia, poderíamos
estar ouvindo falar do Mississípi. Do Missouri, do Rio Grande, do
Hudson. Poderia ser o Amazonas, o São Francisco, o rio Paraná, o
Tietê, o Paraíba do Sul. Todos os rios em cujas margens tantos
milhões trazidos da África já se sentaram e choraram a saudade de
sua terra natal, a dureza e a crueldade de seu cativeiro. E de seus
captores. Sim, seus captores cristãos,
que mais que todos deveriam entender a enormidade do seu crime. Mas
não. Seus captores, sem se dar conta de que, nas palavras de seu
mais precioso livro, os “homens perversos” agora são eles,
pedem que seus cativos cantem pra eles, toquem pra eles, dancem pra
eles. “Vocês são bons de ritmo; continuem, nós apreciamos muito
sua arte. Mas não ousem, claro, julgar-se iguais a nós”. Primeiro
como escravos, depois como serviçais contratados sob demanda, ou
mesmo como artistas de sucesso – afinal, cumpriam bem sua função
de entreter – a história da música negra na América (toda ela)
bem que poderia em grande parte ser resumida desse modo.
Claro
que essa é uma interpretação minha.
Mas eu passei por uma curiosidade adicional. Mostrei o vídeo e a
letra pra minha filha. Do alto de seus meros oito anos, então, ela
me disse: “Eles estão falando da escravidão que viveram aqui,
depois de capturados na África. Estão falando do que nós fizemos a eles”. Embora o exílio babilônico seja
assunto corrente em qualquer
escola
dominical ou sabatina, não passou pela cabeça de minha filha que
aquelas pessoas negras estivessem cantando outra coisa que não suas
próprias dores, sofridas sob o jugo da escravidão ou da
discriminação.
Uma
pesquisa posterior me revelou que essa canção tem origem
ainda mais antiga que seu estrondoso sucesso com o grupo Boney M.
em 1978. Trata-se de uma composição rastafári
jamaicana, o que explica ainda melhor sua vinculação aos temas
bíblicos, e é de 1970. Ainda assim, minha leitura, acho, não se
invalida. Afinal, essa é a beleza da arte: ela se presta a múltiplas
intenções, expressões e impressões. A minha impressão tornou
essa canção muito valiosa e, como eu já disse, muito tocante pra
mim. E hoje, 12 de maio, véspera da Abolição, tema que me é muito caro, inclusive pela negligência a que a data tem sido relegada em
nosso Brasil sem memória histórica, sinto-me ainda mais movido a
partilhar o sentido e a beleza que os rios da Babilônia agora me
inspiram.
Por
amor à brevidade, despeço-me com as palavras do outro salmo citado
na canção. Que elas nos mantenham vigilantes, e nos guardem, para
sempre, de assumir o papel de perversos opressores de nossos
irmãos.
As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam
agradáveis na tua presença, Senhor, rocha minha e redentor meu! –
Salmo
19:14