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domingo, 27 de março de 2016

Estupro coletivo

Suponhamos o seguinte cenário, nada inverossímil: moça bonita, com roupa provocativa, caminha à noite num trecho não muito recomendável da cidade. Sozinha. Acontece o “inevitável”. Ela é cercada por um bando de marginais, que a levam para um beco escuro e perpetram um dos crimes mais hediondos já inventados: um estupro coletivo. Agora vamos “ao que interessa”: de quem é a culpa?

A pergunta acima faz sentido? Não conheço mente sadia que responda “sim”. Mas conheço mentes doentes que vão além e dizem: “Da moça, claro. Ela não devia estar sozinha. Não devia estar ali. Não devia se vestir como uma vadia. Ela procurou.” Eu vou mais longe: conheço alguns argumentos morais, religiosos, sociológicos e antropológicos capazes de endossar essa opinião. Mas não vou elencá-los. Tenho mais o que fazer.

Sim, o estupro é indefensável. Estupradores são indefensáveis. Pessoas decentes, pessoas de bem, ficam chocadas quando ouvem “argumentos” que transferem para a vítima a culpa de ter sido estuprada. E é chocante mesmo. Que tipo de “raciocínio” leva uma pessoa a adotar tamanha inversão de valores? O mesmo que leva tanta gente a defender Lula, Dilma, o PT e toda essa quadrilha que estupra o Brasil há treze anos.

Que não reste dúvida quanto ao que penso: fico chocado, perplexo, atônito mesmo de ver uma pessoa, supostamente “de bem”, defender bandidos inveterados cuja culpa é tão flagrante, tão evidente que não deveria mais ser objeto de discussão. Discutir se essa gente praticou crimes ou não faz tanto sentido quanto perguntar de quem é a culpa de um estupro. Defendê-los porque houve outros antes deles é como defender um bando de estupradores porque estes não inventaram o estupro. Exigir a impunidade deles porque não são os únicos corruptos em atividade é como dizer que só se pode prender um estuprador se forem presos, ao mesmo tempo e de uma vez, todos os outros. Alegar avanços sociais pra absolver Lula e sua gangue é como defender um estuprador porque ele dirige uma ONG benfeitora da “comunidade”. Acusar imprensa, polícia, ministério público e justiça de perseguir o PT e seu governo é como exigir que notórios estupradores sejam deixados em paz a menos que se achem almas puras e imaculadas para testemunhar contra eles.

Eu sei muito bem que não faltam intelectuais, artistas, jornalistas, cientistas políticos, filósofos e o diabo a quatro recheados de argumentos contra o que acabei de dizer. Isso não me comove. Não faltam livros, reportagens, artigos, documentários, vídeos e testemunhos dedicados a defender quaisquer ideias imagináveis. Isso não as torna verdadeiras. Pessoas “inteligentes” são capazes dos malabarismos retóricos mais rocambolescos pra defender suas ideias. A intenção clara, nesses casos, é confundir, pra que ninguém saiba direito o que pensar.

Mas não é preciso ficar refém da confusão. Pra não se perder nesse cipoal de “narrativas”, palavrinha cara às esquerdas focaultianas, basta ter claros alguns princípios. Um deles: a culpa de um estupro não é da vítima; é do estuprador. Outro: a culpa do amontoado de crimes que o PT cometeu ao longo de todos esses anos não é das vítimas desses crimes; não é dos cidadãos que querem ver essa gente fora do governo e, de preferência, na cadeia; a culpa é deles.

Que os culpados paguem.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Os corruptos do bem

Já tratei do assunto antes. Mas ele merece considerações adicionais. Vamos a elas.

Há algumas semanas, percebi nas redes sociais um certo #mimimi de petistas que até poucos dias ainda vomitavam bazófias sobre os "reacionários coxinhas". Diante da avalanche de evidências de que o PT comandou um megaesquema de corrupção como "nunca antes na história deste país", o ímpeto de negar ou relativizar o papel do partido no escândalo arrefeceu no coração dessa gente. A vergonha diante do ridículo a que se expuseram durante tanto tempo e com tantas desculpas do tipo "foi FHC" finalmente abateu-lhes a arrogância.

Essa arrogância voltou a se manifestar depois do papelão de Lula na ABI, da divulgação do Swissleaks e da omissão dos nomes de Lula e Dilma na lista do Janot. Mas eu quero me concentrar mesmo é no modo petista de expressar consternação naquele intervalo em que a derrota na luta por corações e mentes parecia inevitável. Eles demonstravam tristeza porque lhes doía o sofrimento dos pobres, a existência da miséria, a insistente desigualdade, a indiferença dos ricos com as aflições dos desfavorecidos. Era como se o sonho de finalmente mudar o mundo, começando pelo "governo democrático e popular" do PT, estivesse desmoronando, e com ele o próprio sentido da vida desses abnegados. #mimimi. Moralistas hipócritas.

Tal afetação de altruísmo disfarça uma das maiores canalhices de que são capazes os expoentes da esquerda "revolucionária": acusar todos os que não concordam com seus métodos, com sua visão de mundo e com seus valores de serem egoístas, malvados, burgueses exploradores dos pobres e felizes beneficiários da desigualdade que é causa de toda miséria do mundo.

Pensando assim, essa gente se convence de que a corrupção deles é melhor que a dos outros. Porque "todos são corruptos", mas só eles "pensam nos pobres". Bem, eu tenho novidades. Nem todos somos corruptos. Muitos de nós sempre odiamos a corrupção, inclusive a dos governos não petistas. E lutamos contra ela. E não vemos motivo pra fazer diferente quando o governo é de um partido ou de um político em que votamos. Porque nós, os seres humanos "ordinários", que não somos de esquerda, não temos bandidos de estimação. Não acreditamos em doutrinas políticas redentoras. Não acreditamos em partidos "revolucionários", donos da chave da história, únicos conhecedores do caminho para o progresso da humanidade. Acreditamos menos ainda em líderes carismáticos, "populares" e iluminados. Tipo Lula.

E muitos de nós, fora da esquerda, também pensamos nos pobres. Também queremos que eles deixem de ser pobres, que melhorem de vida, que deixem de ser explorados. Ocorre que nós não acreditamos que os métodos defendidos e praticados pela esquerda sejam eficazes. Na nossa opinião, esses métodos retardam a redução da pobreza, quando não a pioram, seja por tornar os pobres ainda mais pobres, seja por arrastar para a pobreza quem antes nem pobre era. Você, da esquerda, pode não acreditar em nós. Pode discordar de nós. Mas não tem o direito de dizer que, por pensarmos assim, somos uns malvados indiferentes aos pobres. Se você julga ter esse direito, tem uma séria deficiência intelectual ou uma grave deformidade de caráter.

Assumamos, então que você, esquerdista, e eu, direitista (pode me chamar assim, se isso o conforta), somos gente honesta, decente, altruísta e com vontade de mudar o mundo. Discordamos quanto aos meios, mas acreditamos na boa fé um do outro. Só que eu estou no poder. Você, não. Eu governo, você se opõe. Mas eu percebo que meu "mundo melhor" não será possível se eu não ceder à fisiologia, se eu não aparelhar a máquina pública, se eu não fizer acordos espúrios com os oportunistas que sempre saquearam o povo, se eu não fechar os olhos à corrupção deles ou, no último caso, se eu mesmo não praticar - ou mesmo comandar e coordenar - a corrupção. Um belo dia, tudo isso tem à tona. Acaso você aceitaria que eu me justificasse dizendo que eu e meus correligionários somos pessoas decentes, que só fizemos o que todos sempre fizeram, que os outros fizeram pior, que a mídia - neste caso, seria uma mídia de esquerda, viu? - quer me derrubar, que a mesma mídia encobriu a corrupção quando você dava as cartas, que a KGB - ou o que restou dela -, Cuba, Maduro, as FARC e o Foro de São Paulo patrocinam uma campanha de desinformação pra viabilizar um golpe contra meu governo, um governo tão bem intencionado que só pensa em melhorar a vida dos pobres...? Não? Você não aceitaria? Tem certeza? E por que raios você quer que eu aceite esse tipo de "justificativa" para a sua corrupção, a do seu partido, do seu governo, dos seus heróis?! Ah, vá se catar!

Todas as "desculpas" acima são inaceitáveis, venham de quem vierem. Isso não muda porque você é do bem, porque você é de esquerda, porque você se importa com os pobres. Eu também sou do bem, também me importo com os pobres. E isso não me dá o direito de roubar, não me dá o direito de, tendo roubado, almejar compreensão, condescendência, uma nova chance; não me dá a autoridade pra dizer como a política deve ser "reformada" pra que esse tipo de coisa nunca mais aconteça. Por que daria a você?

Parafraseio aqui palavras que li de Reinaldo Azevedo: Na democracia (se ela fizer jus a esse nome), nós discordamos no conteúdo, mas concordamos na forma. Quer dizer, podemos ter todas as divergências possíveis, mas aceitamos que todas as nossas ações devem se dar dentro da lei. Nenhum de nós tem o direito de infringir a lei em nome de nossos valores, de nossos ideais. Porque isso implica necessariamente reconhecer que a outra parte pode se dar o mesmo direito. E isso nos tornaria definitivamente um país de ladrões.

Aqui está o ponto central deste texto: não existe corrupção do bem. Não existe corrupção bem intencionada. Não existe corrupção justificável. Se a esquerda espera ter essa prerrogativa, por que o mesmo direito teria de ser negado à "direita"? Por que os "capitalistas", os "neoliberais" não fariam jus ao mesmo tratamento, bastando pra isso argumentarem que são pessoas do bem e que fizeram tudo pelo bem do país e especialmente dos mais pobres? Ah, porque não existem direitistas, capitalistas e neoliberais decentes, altruístas, honestos e sinceros? Quer dizer realmente que a esquerda detém o monopólio da virtude?

Esse arrazoado, implícito no discurso de vocês, só deixa claro que o que lhes interessa mesmo é deter o monopólio da roubalheira impune. Tudo em nome do bem.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Notas de um recente "dabate" no Facebook

Sobre FHC, um eventual impeachment de Dilma, e o interesse da CIA nisso.

Rosivaldo: 1) FHC não foi o governante dos sonhos. A aliança com o PFL, que era o PMDB da época, foi uma "traição" por si só. Mas é bom lembrar: o PSDB tentou compor com o PT, que rejeitou. Como sempre. E o PSDB nada tinha de direita. O PT é que sempre foi maniqueísta mesmo.

2) Ainda assim, FHC melhorou muito o país. Não só na inflação, que ele recebeu na casa dos três ou quatro dígitos e devolveu em um dígito. Os 12% de seu último ano foram por conta do discurso incendiário do PT. Eu lembro muito bem. FHC modernizou as instituições e a economia. Como todo remédio, houve efeitos colaterais, alguns graves. Mas o saldo foi positivo.

3) O Brasil vinha de décadas de caos econômico. Durante a arrumação, que não tinha como ser rápida, não foi possível acumular reservas cambiais a tempo de nos blindar contra as enormes crises internacionais dos anos 90. A gente se ferrou várias vezes.

4) FHC pagou o amargo preço político de tomar medidas austeras mas necessárias. Lula colheu os benefícios. Essa é a verdade. Qualquer economista não militante pode confirmar essas coisas.

5) Não acredito no envolvimento da CIA em nossa crise atual. Fico com Carl Sagan: afirmações extraordinárias requerem evidências extraordinárias. Embora isso tenha acontecido muito no passado, é bom lembrar que não estamos mais na Guerra Fria. As coisas são muito diferentes hoje.

6) Não me importo de mudar de ideia amanhã, se surgirem evidências. Só não posso trabalhar com ideias conspiratórias, porque elas podem se estender 'ad infinitum' sem precisar de nenhuma prova. A desconfiança e a imaginação bastam.

7) Por favor, não se ofenda com o título, que não é meu intento. Mas, falando de livros, é bom lembrar o "Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano", que mostra como grande parte do atraso em nosso continente deriva mais de nossa cultura de vitimização perante o "Império" americano e de nossa teimosa busca de soluções via populismos, notadamente os de esquerda.

8) E se ficar comprovado crime de responsabilidade de Dilma nessa história toda? Fazemos o quê? Deixamos pra lá, porque talvez a CIA, ou a direita, ou a "elite" quer exatamente isso pra alcançar o poder? Pelo amor de Deus, eu vou embora do Brasil se uma tese dessas se materializar.

9) E se ficar comprovado, nesse processo do Petrolão, crime eleitoral da campanha de Dilma? Vamos deixar pra lá porque em vez de Temer (no caso do impeachment) nós teríamos Aécio presidente?

10) Ainda que se suspeite, e eu suspeito, que Aécio também não tenha sido de lisura completa em sua campanha, vamos deixar Dilma quieta mesmo diante de um crime eleitoral provado, apenas porque existe uma suspeita difusa de que seus oponentes não foram nem são totalmente honestos? Suspeita genérica equivale a prova de crime?

11) Se nada ficar provado sobre Dilma, apenas lamentarei. Porque não acredito em sua honestidade. Mas a lei tem de ser seguida: crimes comprovados têm de ser punidos na forma da lei. Os não provados têm de ter seus respectivos processos arquivados. Sobre esses, no máximo, pesa a condenação moral, que é subjetiva. Simples assim.

12) O PT não vai dar um golpe de Estado. Não porque não queira, mas porque não pode. Os militares não estão do lado deles. Não dá pra fazer golpe sem algum tipo de força armada. Eles também não têm uma guerrilha nem tropas paramilitares pra isso.

13) Mas o apoio incondicional que o PT sempre prestou aos Castro, a Chávez, às FARC, a inúmeras ditaduras antiamericanas em todo o mundo evidencia que o PT não tem o menor apreço pela democracia. Nem pelos direitos humanos, que é uma bandeira tão "defendida" pelas esquerdas, que votam no PT ainda que o detestem porque acreditam que a "direita é machista, racista e homofóbica".

14) Esse apoio evidencia que o PT não se importaria de transformar nosso país em uma "ditadura companheira" (eles nem sabem mais o que é "proletariado") sob o pretexto de combater as "elites" que tanto maltratam os "pobres".

15) O desprezo do PT à liberdade, supostamente justificado por sua política de "justiça social" é o que um partido pode ter de pior. Adoraria ver nosso povo entender isso. Nossos "intelectuais" merecem apenas desprezo por apoiar um partido assim. É um discurso de psicopatas para plateias histéricas ávidas da relevância que não têm.

S. P.: Concordo plenamente com você, Rosivaldo, em relação ao crime da presidente precisar ser esclarecido e comprovado, antes de o impeachment E das outras punições serem aplicadas.
O problema é que, no nosso país dos coronéis, nem sempre as coisas seguem a ordem esperada.
Quanto à CIA, entendi que apesar de não acreditar que ela seja responsável por nossa crise, deve admitir que a Presidência da nossa República foi alvo de espionagem daquela agência. Afinal, este foi um fato noticiado mundialmente, forte e publicamente repudiado por nossa atual representante enquanto brasileiros. Essa espionagem precisa ter um motivo. Qual seria, então, o motivo? Salve-me desta paranoia.

Rosivaldo: Desculpe, S. Eu esqueci o Wikileaks. O Brasil é um inimigo potencial dos EUA. Nossa política externa é clara quanto a isso. Por si só, é motivo pra sermos espionados. E, sim, eles espionaram a própria Petrobras, o que evidencia uso da "maquina" deles em nome de interesses comerciais (de suas empresas) e não somente para fins de segurança nacional. OK, o jogo é bruto, fazer o quê? Não podemos é deixar de assumir o controle de nosso destino por medo do "Império". [A propósito, o Wikileaks revelou que os EUA espionaram e ainda espionam todo mundo! Até seus aliados europeus.]

Josias de Souza: Para ‘decifrar’ Renan, Planalto recorre a Temer


Eis o resultado de um governo que preferiu se aliar ao que havia de pior em nossa política em vez de compor com gente menos canalha que o PT tratou de vilipendiar com o rótulo de "direita". Hoje estamos na mão do PMDB. De Renan. Renan! Eles não são burros. Sabem que o PT está fazendo água. Os ratos sabem quando o navio vai naufragar. E tratam de pular fora o quando antes.

Consolidou-se no Planalto a conclusão segundo a qual Renan decidiu flertar com a oposição por considerar que o governo não moveu uma unha para livrá-lo das complicações da Operação Lava Jato. A leitura dos correligionários do PMDB é outra: ao sentir o cheiro de queimado, Renan decidiu protagonizar dois gestos.
Num, o morubixaba do PMDB alagoano acena para o pedaço da Opinião Pública que já não suporta Dilma e o PT. Noutro, ele faz média com os partidos de oposição no Senado. Tenta evitar a formação de uma maioria que, em futuro próximo, possa ameaçar-lhe o mandato.

Quanto a Dilma, que já não socorre nem a si mesma, Renan já não enxerga nela o proveito de outrora. Hoje, já não é possível extrair impunemente dividendos de “espaços'' como a Transpetro, uma jazida onde Renan manteve por 12 anos o afilhado Sérgio Machado.

Leia o artigo inteiro aqui.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

A corrupção "do bem"

Não há palavras pra descrever meu assombro com a "intelectualidade" que me cerca. Não poderia haver pessoa inteligente e honesta indiferente - menos ainda complacente - com o absurdo que se desenrola diante dos olhos de todo brasileiro. O PT elevou a corrupção a alturas "nunca antes neste país" imaginadas. Já não falamos de milhões, mas de bilhões - dezenas de bilhões. Fora o prejuízo com a desvalorização da Petrobras - bilhões que já se contam às centenas. Se a empresa não recuperar sua credibilidade, esses gigantescos prejuízos terão de ser cobertos pelo Tesouro Nacional. Ou seja, seu dinheiro. De toda a população, inclusive - pior! - dos mais pobres, que sofrerão mais, como sempre. A alternativa? Bem, a Petrobras pode falir. Nem nos piores pesadelos políticos e econômicos se cogitou um dia tal coisa. Mas ela pode acontecer. Incrível!

A mais nojenta das argumentações de "intelectuais" de esquerda e simpatizantes é dizer que tudo se trata de conspiração da mídia golpista, que representa a direita em sua pretensão de voltar ao poder. É preciso ser oligofrênico pra acreditar nessa versão. Que a "direita" queira voltar ao poder é problema dela. Nosso problema é que essa quadrilha tem assolado o país desde que assumiu o poder. Ela tem de ser tirada de lá. Ponto.

O que esses intelectuais de barzinho não entendem - mesmo, eles não entendem! - é que um governo corrupto é muito pior que um governo de direita; que corrupção é muito pior que capitalismo; que é melhor ter um governo "neoliberal" que respeite o dinheiro público do que um governo "socialista" que assalte o erário. Eis a prova: Austrália, Nova Zelândia, Canadá, Suécia, Dinamarca, Inglaterra, Chile, Bélgica, Holanda, Japão... A lista é longa. Nenhum desses países é socialista. Nenhum teve "revolução", essa tara sangrenta que move nossas viúvas de Che Guevara. Todos são capitalistas. Capitalistas! Uns mais liberais (no sentido político-econômico), outros mais intervencionistas, mas nenhum - nenhum! - desses povos é idiota - a palavra é essa - de pensar em abandonar seus regimes atuais em nome de uma guinada redentora rumo à esquerda revolucionária. E suas populações estão, em maior ou menor grau, muito bem, obrigado. E eu não citei países que sejam hoje - e muitos jamais o foram - exploradores da miséria do Terceiro Mundo. Seu bem-estar é fruto de suas virtudes, não da pilhagem dos mais fracos.

Ocorre que esses países têm entre suas qualidades a intolerância com a corrupção, seja ela de que ideologia for. Não lhes faltam corruptos, mas estes são punidos quando flagrados. Por que diabos nossa intelligentsia se recusa a fazer o mesmo com seus corruptos? Porque estes representam seus sonhos juvenis de "justiça social" e "igualdade", dois fetiches que roubam dessa gente a capacidade de repudiar peremptoriamente o inaceitável. Enquanto isso, a América Latina, a África e a maioria esmagadora dos países islâmicos são dominadas por elites corruptas até a raiz da alma. Nesses lugares, até a ajuda financeira, quando enviada pelos países ricos, não chega aos necessitados - nem mesmo em situações de calamidade. O dinheiro vai sumindo enquanto escorre pela hierarquia governante. Não por acaso, contam-se entre esses os países mais miseráveis do mundo. Nossa elite "pensante", no entanto, acha que a pobreza desses lugares é fruto da exploração capitalista...

Se queremos dar um país melhor pra nossos filhos e netos - esta geração já era -, temos que dar um "basta!" nisso tudo. Temos de mostrar que nunca - nunca! - seremos condescendentes com a corrupção, venha ela de onde vier. Os próximos políticos - de direita ou de esquerda, não importa - pensarão duas vezes antes de ser tão atrevidos em roubar o pão que nos deveria alimentar. Os novos escândalos deverão encarar o mesmo repúdio. Até que se tornem, cada vez mais, exceção em vez de regra.

Chega.

domingo, 23 de março de 2014

A arte é de esquerda?

Caros amigos,

Antes, um pouco de história. No Brasil, vivemos 21 anos de uma ditadura odienta, cuja "inauguração" completa, em poucos dias, 50 anos. Todos os bem-pensantes deste país se colocaram contra aquele regime autoritário. Na vanguarda da oposição intelectual, destacaram-se nossos melhores artistas. Até aí, tudo bem. Mas essa história nos deixou um triste legado...

Que foi o seguinte: sendo aquela ditadura "de direita", porque instaurada para "salvar" o Brasil do comunismo, criou-se uma dicotomia que perdura até hoje. A direita é o mal, a esquerda é o bem. E esse mantra fincou raízes profundas no meio artístico-intelectual, herdeiro da resistência à ditadura. Nesse meio, ainda se cultiva um discurso eminentemente socialista, revolucionário, anti-imperialista, antiamericano, anticapitalista. Ser artista, dos que se creem merecedores dessa alcunha (psiricos e assemelhados não entram!), é ser "alternativo" e, portanto, contra "tudo isso que aí está". Daí que os discursos "de esquerda" sejam sempre mais atrativos nesses círculos.

Por conta disso, vê-se no meio artístico-intelectual uma flagrante condescendência com desumanidades aberrantes, como o regime cubano e seus trocentos presos políticos, seu partido único, seu jornal único, sua polícia política; com a transformação de Cuba numa gigantesca Alcatraz de onde a maioria só pode sair com enorme risco de vida. A mesma benevolência é dedicada aos regimes bolivarianos, especialmente o da Venezuela, que devastou o país e submeteu sua população a um governo autoritário, personalista, perseguidor, totalitário, assassino. Do mesmo modo, nosso governo petista recebe salvo-conduto moral de toda uma classe artística, mesmo quando rouba, corrompe, corrompe-se, censura, mente, persegue, mata, prende desertores cubanos e os devolve a Fidel, atenta contra a vida de perseguidos políticos de regimes "companheiros", distorce o sentido claro do que seja democracia pra admitir no Mercosul a ditadura venezuelana enquanto isola o Paraguai, afaga monstros como Ahmadinejad e Kadafi só porque eles são antiamericanos... A lista é longa.

Raios, por que essas barbaridades são toleradas em vez de denunciadas como absolutamente inaceitáveis?! Porque a esquerda é o "bem", a mídia é mentirosa, o capital é a raiz de todos os males, os Estados Unidos são o Grande Satã... E a arte está do lado do bem, claro. Então a arte que mereça esse nome é de esquerda, claro. Se a esquerda, eventualmente, se vale de meios torpes, bem, sabe como é: os fins...

Recuso-me terminantemente a aceitar esse modus cogitandi. Quem quer que se valha da mentira, da corrupção, do populismo, da censura, da perseguição, da intimidação e até do assassinato sempre receberá meu repúdio. Não me importa que ideologia defenda, de que cor se vista, de que lado esteja. Não será do meu. E por isso tenho sido veemente e insistente em compartilhar notícias e opiniões que coloquem a nu o absurdo a que nos trouxe essa complacência com o injustificável. Não posso me dar ao luxo de me dizer artista ou intelectual, mas tenho vários amigos que podem, e peço encarecidamente a estes que deixem de lado essa nostalgia de um passado heroico em que o "bem" estava supostamente do lado esquerdo da política. Naquele mesmíssimo tempo, no Leste Europeu, artistas e intelectuais que faziam jus a ser assim chamados vergavam sob o peso de ditaduras ainda mais nefastas do que a nossa. E de "esquerda".

O lugar da arte e do pensamento não é ao lado da esquerda. Nem da direita. A arte, mais que tudo, tem de se pôr ao lado da liberdade, da verdade, da humanidade, dos direitos humanos, da vida. E defender esses valores onde quer que eles sejam ameaçados. Por quem quer que seja. Sem lealdades partidárias ou a figuras míticas de revoluções pretensamente redentoras.

A suposta identificação da arte com a esquerda socialista-marxista-revolucionária é totalmente equivocada. Essa ideologia sempre foi avessa à verdadeira arte. Um exemplo só: lembro-me bem da saudosa Rachel de Queiroz, dizendo em entrevista a Jô Soares por que largou o Partido Comunista ainda em sua juventude. Eles queriam interferir no que ela escrevia, transformar sua obra em mera peça de propaganda cultural das ideias do partido. Ela lhes deu uma banana e foi viver sua vida e sua arte. Como todo artista e livre-pensador deve fazer.

Nessa mesma entrevista, Rachel de Queiroz disse que não havia diferença real entre um stalinista e um integralista (quem conhece a história sabe do que se trata). Traduzindo para nossos dias: esquerda e direita, quando se valem de métodos autoritários, mentirosos e corruptos, são indistinguíveis.

Optem pelo bem. O verdadeiro.

PS: Este texto foi motivado pelo apelo de uma artista ("A neutralidade é imoral").

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Quem sempre comeu melado...

Recentemente, resolvi escancarar toda minha revolta com o PT e os defensores de seus mensaleiros, que foram devidamente condenados pelo STF. Não tão devidamente: para alguns, a pena até aqui fixada é leve. Pensar assim me causa dissabores e me granjeia antipatias. Temo que seja pouco. Porque, se depender de minha forma de pensar, ficarei com poucos amigos.

É que não me conformo também com o retorno de quem já deveria estar politicamente morto há muito tempo. Pior: essa gente voltou cavalgando o discurso da ética, bandeira conveniente para se usar contra o PT nos dias de hoje. Tristemente, vi amigos meus, antipetistas, fazendo campanha - e em nome da ética! - pra políticos que são exemplos históricos de tudo que já deveríamos ter deixado pra trás. Pra ficar em exemplos próximos, cito ACM Neto em Salvador e João Alves Filho em Aracaju, recém-eleitos prefeitos dessas capitais.

Queria ter desenterrado o texto abaixo antes de concluídas as eleições. Não foi possível. Se bem que não faria diferença, eu sei. Espero servir ao menos como reflexão post mortem. É um texto antigo, mas, infelizmente, não anacrônico. É só ler DEM onde escrevi PFL. Na época, a mudança de nome era coisa recente.

É uma pena verificar que a derrota do PT e seus aliados nada teve a ver com a superação de um modo espúrio de fazer política.


----- Original Message -----
From: "Rosivaldo Fernandes Alves" <r.@...>
To: <f.@...>
Sent: Monday, October 13, 2008 8:38 AM
Subject: Re: [Q.V.] Olára! Após as eleições municipais


C.,

O comportamento do PFL/DEM durante o governo Lula tem sido realmente surpreendente, num determinado aspecto. "Nunca antes na história desse País", o PFL, por qualquer nome que tivesse, tinha sido oposição. Não esqueça: a galera do DEM de hoje apoiou todo e qualquer um que estivesse no poder, pulando fora de qualquer barco prestes a afundar para imediatamente embarcar no próximo a assumir a dianteira. Reconheço que essa "coerência" o PFL sempre teve.

O fato do PFL não ter aderido ao governo Lula quando este assumiu foi uma surpresa não só pra mim. Na época, antes de Lula ganhar dizia-se no meio político que, quando isso acontecesse, o PFL seria governo e o PT, oposição. Eram papéis que estavam no DNA dos dois partidos...

Mas eis que o PT mostrou-se mais "adaptável". Apesar de, no início, a base do partido ter feito oposição à "continuação da política neoliberal" que Lula implementava, Dirceu e companhia calaram a oposição petista. Depois, foi o que todos vimos. O PT descobriu quão doce é o poder, e isso mudou o DNA do partido, que virou um novo PMDB: um saco de gatos, apto a acolher qualquer canalha que o ajude a ter votos.

Como você vê, minha avaliação do PT é extremamente negativa. Infelizmente, não enxergo o PFL sob melhor ótica. Quando o PT subiu ao poder, até o PSDB, por questão de coerência programática, fez oposição muito moderada. Até ajudou o Lula em votações nas quais o PT e aliados de esquerda preferiam deixá-lo na mão. O PSDB só passou a bater forte em Lula e no PT a partir do escândalo do mensalão. O PFL, não. Desde o começo fez oposição aguerrida ao PT, mesmo quando este não dava nenhuma evidência de corrupção. Mesmo quando a política deste era basicamente a de FHC. Nesse aspecto, o DNA do PFL demonstrou-se menos mutável.

Na minha opinião, o que o PFL nunca suportou em Lula e no PT, o que fez o PFL ignorar até mesmo sua essência adesista, foi o fato do PT ser um governo de esquerda, e de Lula ter uma origem operária, sindical. Isso nada teve a ver com mensalão. O mensalão foi uma oportunidade conveniente para o PFL adotar a "ética" como razão convincente pra ser tão ferrenho em sua oposição ao Lula e ao PT. O mensalão caiu do céu para o PFL, que vislumbrou o cenário de ser ver livre da "raça" petista por pelo menos trinta anos. Antes do mensalão, o PFL não sabia o que fazer para conquistar a opinião pública.

Essa ojeriza pefelista a Lula, ao PT e à esquerda em geral vem do DNA estritamente elitista, coronelista, patrimonialista do PFL. Essa "raça" nunca suportou a idéia de ver o povo alcançar o poder, obter autonomia, dirigir o próprio destino. Os pefelistas (ACM, João Alves e assemelhados) sempre se gabaram de ser grandes realizadores, mas jamais realizaram coisas realmente voltadas a tornar o povão mais autônomo, mais educado, mais saudável, mais consciente, mais culto, menos dependente dos grandes padrinhos e coronéis. Com o fim da ditadura, o lema deles sempre foi: "tudo pelo povo, desde que ele não esqueça quem manda".

Para uma mentalidade dessas, o governo de um ex-operário-sindicalista, símbolo maior do maior partido de esquerda, ainda que hoje esse partido e seu governante sejam apenas uma caricatura daquilo que já simbolizaram, é o prenúncio de uma coisa que o pefelê jamais suportou: o povo, a maioria, os pobres, os mal-instruídos, os "inferiores" no poder. O PFL apoiou todos os governos anteriores porque eram governos de elite: militar, coronelista, empresarial, intelectual, o que fosse, mas elite. O último governo de esquerda que este país teve antes de Lula foi derrubado por um golpe em 64, golpe ao qual o PFL, com nomes de UDN e PSD aderiu alegremente.

Até a corrupção do PT, se deu um pretexto "digno" ao ódio pefelista, também ofende ao PFL de um modo bem curioso: "Quem essa ralé pensa que é pra se achar no direito de roubar um dinheiro que sempre foi nosso"? Os governos do PFL sempre foram antros de corrupção desmedida. Eles não têm nenhuma autoridade moral para condenar o PT.

Como você vê, C., minha visão do DEM não é nada positiva. É até pior do que minha opinião sobre o PT. Eu nunca quis ir fundo nessa minha visão por dois motivos: não sou palmatória do mundo, prefiro ter amigos a estar certo (às vezes), e o quiosque é um "público" ridiculamente pequeno pra eu ficar gastando meu verbo e meu tempo numa cruzada quixotesca. Já bati de frente com G. por causa de Lula. Não queria bater de frente com você. Suponho que você tenha motivos mais pragmáticos pra ter aderido ao então PFL, e espero que você não tome minhas críticas ao partido como críticas pessoais. Não quero estragar nossa amizade, que mesmo distante e tênue tem muito valor pra mim.

Por último, apelo a sua consciência. :-) No passado, você já foi um democrata, no real sentido do termo, e muito provavelmente concordaria com cada palavra que escrevi.

Um abraço,

Rosivaldo.

-----Mensagem Original-----
De: C. J.
Para: f.@...
Enviada em: terça-feira, 7 de outubro de 2008 08:54
Assunto: Re: [Q.V.] Olára! Após as eleições municipais


H. R., o mais "ingraçado" é que lendo sobre esses critérios e, na coluna seguinte, lendo que o PT deverá apoiar o outro candidato, por questões de alianças partidárias, mesmo contra a vontade do Lularápio (como ele mesmo diz que o edurdo bateu muito nele), chego realmente a conclusão que o DEM é o único partido que segue suas origens e sua orientação, não importa qual seja.

 C. J.

domingo, 23 de setembro de 2012

Quem nunca comeu melado...

Antes, algumas considerações... No início, não pretendia fazer deste blog um espaço para discussão política. Refiro-me aqui à política partidária. É que esse tema mais separa do que congrega as pessoas ("partido" implica exatamente isso), e eu sempre preferi focar o que nos aproxima. Ou o que ao menos deveria.

Mas as coisas mudam. Gostaria de ter tempo pra escrever sobre muitas coisas; e, nos dias que correm, política é uma delas. Na falta desse tempo, leio o que me interessa e, quando acho conveniente, compartilho. Só um pouco, e não aqui. Mas agora quero fazê-lo, e neste espaço. É que dia desses li, na seção "Feira Livre" da coluna do Augusto Nunes, um artigo de Dora Kramer intitulado "Lambuzado no melado". Não deu pra resistir. Há meses quero divulgar aqui um antigo texto meu, especificamente de 2007, publicado num semanário local graças ao espaço cedido pelo meu amigo Gilton Lobo, à época colunista da publicação. Curiosamente, eu fechei meu texto com um pensamento que ecoa e se amplifica enormemente no texto de Dora. Decidi não esperar mais.

O que me deixaria realmente satisfeito seria produzir textos novos sobre o tema. Não tenho como. Quem sabe um dia. Até lá, adianto que hoje não tenho mais nenhum receio de dizer que o PT tornou-se o patrono do que existe de pior na política brasileira: corrupção desenfreada, rompantes ditatoriais, vigarice intelectual sem limites, alianças espúrias com qualquer canalha – dentro ou fora do país – que lhes ofereça algum benefício, erosão ética e moral da política e das instituições... e coisas do mesmo quilate. Só a covardia me impediria hoje de dizer isso em alto e bom som. E covarde eu não sou. 

Aos amigos que discordam, peço-lhes a tolerância que pessoas civilizadas dedicam umas às outras. Aos partidários do PT que virem nisso um motivo pra me detestar afirmo que o seu respeito não me interessa, porque ele me custaria um preço muito alto: chafurdar num lamaçal onde ética e princípios são desdenhados e vistos como valores de uma suposta elite burguesa e golpista.

Dito isso, vamos ao artigo que motivou este post. Ele foi escrito depois que o PT articulou a absolvição do então presidente do Senado, Renan Calheiros, num processo de cassação por inúmeros atos de corrupção e quebra de decoro. Foi inacreditavelmente vergonhoso. Não posso deixar de registrar que, além do PT, protagonizou o episódio o então senador por Sergipe, Almeida Lima, na época filiado ao PMDB e hoje candidato irrelevante à prefeitura de Aracaju pelo PPS.

País de Covardes

Mas se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.
(…)
Pátria amada,
Brasil.


As palavras acima, todos sabem, são do Hino Nacional. E estão entre as mais belas de nosso já tão belo hino. Infelizmente, não traduzem a realidade. O mais grosseiro e recente exemplo ocorreu nesta última quarta-feira, 12 de setembro de 2007: quando a justiça ergueu sua clava forte, os ilustres representantes da Nação no Senado da República esconderam-se covardemente sob o manto ignóbil e escuro de uma sessão subterrânea seguida de vergonhosa votação secreta, desviando o golpe certeiro que pairava sobre Renan Calheiros.

Alguns me chamarão de injusto, mas ouso creditar o atual império da fraqueza moral ao governo do PT. Sim, porque nos áureos e românticos tempos de oposição, o partido que ostentava com mais bravura que qualquer outro a bandeira da ética e da justiça jamais liberaria seus senadores para “votar conforme sua consciência”, como aliás bem o fez – ou deixou de fazer, na verdade – Aloízio Mercadante. Se o PT de hoje fosse o de antigamente, usaria todo o peso do partido e de sua condição de governo para expulsar Renan a justíssimos golpes de tacape.

Mas o PT precisa governar. Pra isso, precisa do Congresso. Precisa do PMDB. Precisa da CPMF. Precisa de um PIB sempre crescente, de uma inflação educada. Precisa de calmaria. E está disposto a pagar qualquer preço por isso, mesmo que a moeda tenha a forma de troca de favores, de cargos, de verbas em emendas do orçamento, de absolvições escandalosas ou de puro e simples mensalão.

Os mais indulgentes dirão que é melhor compactuar com tudo isso do que jogar o País na crise que o enfrentamento inevitavelmente traria, com consequências danosas para a população, principalmente a mais pobre, público alvo preferencial do governo Lula. Concordo. Um governo ético jogaria o Brasil no caos, e o povo sofreria muito. Mas... onde está nossa coragem para não fugir à luta justa, ainda que dela nos venha a morte? Só vale para dia de jogo da Seleção? Não compensaria ao País passar dois, três, ou mesmo cinco anos de crise econômica e política, mas sair de tudo mais limpo, mais justo, mais confiante nas instituições, mais certo de que o governo e o parlamento realmente existem não para proveito de seus ocupantes, mas para atuar em favor da Nação? Não compensaria ao PT arriscar a próxima eleição em prol – perdoem-me o lugar-comum – da próxima geração?

O pior de tudo é que toda essa covardia conta com a cumplicidade da população, que insiste em presenciar inerte tudo isso e, pior, continua votando essencialmente nos mesmos nomes de sempre. Mesmo Lula só foi eleito porque prometeu – e cumpriu – abandonar seu discurso de “ruptura”. O povo, e especialmente a classe média, não quer ruptura. A ruptura é arriscada. Melhor continuar tudo como está pra ver como é que fica.

Termino dizendo a quem do PT se sente ofendido por minhas palavras: estou sendo condescendente ao ver boa intenção na traição petista à ética e a seu próprio passado. Eu poderia atribuir essa traição à simples desonestidade e ao estado lambuzente de quem nunca comera melado. Quanto ao leitor que acha injusto ser por mim acusado de cúmplice da covardia, recomendo: levante de sua cadeira a parte posterior do quadril e prove que estou errado. A Pátria amada agradeceria.

P.S.: Sobre "lambuzente": esse arremedo de neologismo é uma tentativa arriscada de estabelecer paralelo com "lactente" (em oposição a "lactante").

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