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quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Review: Jeito de matar lagartas

Jeito de matar lagartas Jeito de matar lagartas by Antonio Carlos Viana
My rating: 5 of 5 stars

Nunca fui muito fã de contos. A natureza low profile dessa forma literária sempre me fez recear ter de ler histórias rasas e insípidas. Por isso fujo deles. Por medo. Não fugi destes. E como valeu a pena! Li o livro em duas sentadas, não por pressa, mas pelo enorme prazer de imergir nos tipos humanos mais variados e, ainda assim, feitos tão familiares pela prosa concisa, cotidiana, coloquial e, ao mesmo tempo, impecável do autor. Faço esta última observação porque, estando sempre a ler livros ou textos jornalísticos "sérios", desespera-me ver traduções pavorosas, erros de concordância, conjugações mancas e outros defeitos que não deveriam provir das mãos de profissionais da palavra. Antonio Carlos Viana acerta até quando reproduz à perfeição os deslizes da linguagem falada. Um alívio, ainda mais vindo de um quase conterrâneo.

Mas não se engane: não é a gramática que faz deste um livro especial. É a imaginação poderosa do autor, que possibilita ao leitor viver tão intensamente tantas vidas em tão poucas páginas. Senti-me mais humano durante cada uma das histórias. Uma sensação quase esquecida, tão longe vai o tempo em que me permitia esse sair de mim mesmo pra sentir e ver o mundo pelos olhos de outros.

Obrigado, Antonio.

Obrigado, Aglacy.

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domingo, 2 de outubro de 2016

Review: Como Jesus se tornou Deus

Como Jesus se tornou Deus Como Jesus se tornou Deus by Bart D. Ehrman
My rating: 5 of 5 stars

Pra alguém que ama História como eu, este é um livro difícil de largar. Seus relatos vívidos, seus comentários sagazes, suas expressões hilárias (como assim, "a ascensão física de um corpo real ossudo e comedor de peixe"?!), sua fartura de citações contemporâneas aos fatos discutidos, tudo contribui para tornar prazerosa sua leitura.

Ao contrário de "Jesus: A Biografia" (http://abelardicas.blogspot.com.br/20...), esta é obra de um descrente. Como tal, pode doer nas almas mais sensíveis, que não admitem nenhuma insinuação de que Jesus seja qualquer outra coisa senão Deus em sua plenitude. Mas é um livro respeitoso. Claro, fundamentalistas consideram respeitoso apenas o que reforça suas crenças. Estes se sentirão desrespeitados. Não é o meu caso.

Não quero entregar o conteúdo, mas preciso pontuar um aspecto que me saltou aos olhos. A vastíssima maioria do cristianismo atual abraça e defende a doutrina da Trindade, considerando-a ponto central e inegociável de sua fé. Mas, é claro, sempre houve e sempre haverá os que acreditam diferente, por achar que tal doutrina corrompe e afronta o monoteísmo, roubando de Deus a singularidade de sua glória. Longe de mim dizer quem tem razão. No entanto, ler de um não cristão como a crença na deidade plena de Jesus se desenvolveu ao longo do tempo reforçou em mim uma convicção antiga: a alternativa seria rasgar as Escrituras.

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sábado, 17 de setembro de 2016

Jesus: A Biografia

Jesus: A BiografiaJesus: A Biografia by Jean-Christian Petitfils

My rating: 5 of 5 stars


O livro me surpreendeu logo de cara. Trata-se de um estudo profundamente erudito acerca do Jesus histórico, mas, inesperadamente pra mim, escrito por um homem que crê no Jesus teológico.

Concluída a leitura, minha surpresa inicial transformou-se quase em gratidão. O autor foi capaz de defender com enorme competência a historicidade dos evangelhos, especialmente o de João (mais uma surpresa!), dissipando a pesada bruma de lenda e mito que nos últimos séculos as mentes mais céticas fizeram baixar sobre essas narrativas, a ponto de tornar razoável duvidar até da mera existência de Jesus.

O historiador ainda se atreve a demonstrar que, dentre tantas relíquias supostamente ligadas a Jesus, três merecem o selo de autenticidade: o sudário de Turim (o Santo Sudário), o sudário de Oviedo e a túnica de Argenteuil. A crer no escritor, cristão nenhum precisa temer pela realidade material e histórica do Cristo, da qual há evidência concreta, visível, passível de estudo e capaz de resistir às análises mais rigorosas. Um tesouro para o estudante de história; um alento à fé.

Por falar em fé, se a sua depende de crer na infalibilidade textual dos evangelhos, ou da Bíblia inteira, fique longe de um livro como este: o historiador não hesita em apontar falhas e contradições, internas e externas, do texto sagrado. Internas, as que fazem um evangelista desmentir outro; externas as que são desmentidas pela história. Quem entende bem o conceito de inspiração sabe que isso é mais que natural. Da minha parte, tais ressalvas apenas tornam mais críveis tanto este livro quanto os próprio evangelhos.

Minha única queixa: a tradução. A Benvirá precisa fazer um cuidadoso trabalho de revisão para reimpressões e edições futuras se não quiser comprometer a credibilidade de uma obra tão valiosa e da própria editora.



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