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sábado, 18 de janeiro de 2014

Trânsito, radar e "bom senso" (parte 7)

Por motivos de força maior, deixei pendente por muito tempo o desenvolvimento deste tema (e do blog). Retomo as duas coisas agora. O texto merece alguns reparos, mas trata-se de um e-mail, não de um artigo; então preferi preservar muitos dos defeitos típicos da escrita informal e apressada do correio eletrônico. Merece reparo também a descrição que faço de uma via pela qual trafegava diariamente na época do texto. Muita coisa mudou desde então: sinalização, limite de velocidade, fiscalização eletrônica (na verdade, a ausência dela)... Para melhor, mudou o comportamento dos motoristas: embora muitos ainda não respeitem a faixa, a maioria também não quer mais assassinar quem dá a devida preferência ao pedestre. Já é um ganho e tanto.

----- Original Message -----
From: Rosivaldo Fernandes Alves
To: c.@yahoogrupos.com.br
Sent: Thursday, September 27, 2007 10:01 PM
Subject: RES: [c.] Re: Off-topic: Semana de trânsito


F., :-)

A SMTT e a polícia não são equivalentes. Analogia não é equivalência. Uso analogia para esclarecer: o cidadão tem deveres para com os outros cidadãos, que devem ser cumpridos mesmo que o governo não cumpra sua parte, e os cidadãos devem exigir punição para o cidadão que descumpre seu dever para com os outros cidadãos. O que toda a imprensa sergipana fez, como também faz esse discurso de dizer que radar não deveria existir enquanto a SMTT não fizer sua parte, é exigir impunidade para os infratores. E essa impunidade é exigida porque nossa sociedade tem uma cultura que privilegia a impunidade, o passar a mão na cabeça, o dar um jeitinho. E nós temos essa cultura porque nossa indiferença para com as leis é tão generalizada que sabemos que mais cedo ou mais tarde todos nós vamos precisar dessa condescendência. Então, todos somos "compreensivos" com os que "erram", já que qualquer um de nós poderia estar no lugar deles.

Repito: não sou um alienígena. Eu dirijo, e vejo o que os outros motoristas fazem no trânsito. 90% deles jamais poderiam sair de casa e voltar sem ter ao menos cinco multas nas costas. E isso nada tem a ver com má sinalização. Seu exemplo, embora corretíssimo, nada tem a ver com o que ocorre no dia a dia. No São Conrado, todo santo dia passo por um trecho em que os motoristas são avisados centenas de metros antes, duas vezes, dos dois lados da pista: velocidade máxima, 40 km/h. Pelo simples fato de que à frente o condutor vai passar por uma área estreita, com grande aglomeração e movimentação de pessoas, travessia de pedestres, inclusive crianças indo à escola e voltando dela, além de pontos de ônibus em calçadas estreitas de uma avenida curva. Passo o primeiro aviso, ninguém reduz pra 40. Desculpe-me a presunção: apenas eu. Passo o segundo: reduzem, apenas porque à frente há uma lombada eletrônica. Não querem que o radar os pegue. Imediatamente após a lombada eletrônica, há uma faixa de pedestres à qual ninguém obedece. Porque ninguém obedece, há um quebra-molas imediatamente após a lombada, o que é a maior prova do nível troglodita de nossa civilização. Como o quebra-molas não é suficiente para os motoristas terem a decência de parar para os pedestres que desejam atravessar a rua, frequentemente é necessária a presença de agentes de trânsito parando os carros à força, para que a faixa seja respeitada. Não me venha falar que nossos motoristas fazem absurdos pela falta de sinalização. Essas coisas são pura e simples falta de educação mesmo.

Eu sou um dos pouquíssimos imbecis que para em toda faixa de pedestres sempre que algum quer atravessar. O direito é dele. Ninguém jamais bateu no fundo do meu carro, porque eu tomo a precaução de reduzir com antecedência e observar se posso parar com segurança. Inúmeros motoristas já me deram buzinaços e já fui alvo de inúmeros xingamentos. No mesmo São Conrado, há mais duas faixas de pedestres além da que fica junto à lombada. Paro nessas também. Um dia, um motorista de um carro da SMTT me deu um buzinaço, me xingou e sinalizou que era absurdo eu parar em duas faixas de pedestres consecutivas, atrapalhando o precioso parcurso dele. Coisas como essa só confirmam o que eu estou careca de saber: dos supostos "cidadãos" (as aspas são porque nós não temos esse tipo de coisa de verdade por aqui) aos agentes públicos, todo mundo só está preocupado com o próprio umbigo. Todos se lixam para o "outro".

Eu não fico incondicionalmente ao lado da lei. Fico incondicionalmente ao lado do direito, da justiça e da ética. Tenho inteligência suficiente para perceber quando uma lei é absurda e sou capaz de denunciá-la por isso. Não me falta bom senso. O que eu tenho é educação.

Um abraço,

Rosivaldo.
[P.S.]: No São Conrado, há placas que indicam a presença das faixas de pedestres com bastante antecedência, bem como ao lado das próprias.

-----Mensagem original-----
De: c.@yahoogrupos.com.br [mailto:c.@yahoogrupos.com.br]Em nome de R. de A. R.
Enviada em: quinta-feira, 27 de setembro de 2007 10:53
Para: calicomp@yahoogrupos.com.br
Assunto: Re: [calicomp] Re: Off-topic: Semana de trânsito

(...)

sábado, 13 de outubro de 2012

Trânsito, radar e "bom senso" (parte 5)

----- Original Message -----
From: Rosivaldo Fernandes Alves
To: c.@yahoogrupos.com.br
Sent: Thursday, September 27, 2007 8:20 AM
Subject: RES: [c.] Re: Off-topic: Semana de trânsito


Grande R.,

Que bom que você gostou do meu texto. Muito obrigado. Só tem um probleminha: quem é F.? Não consegui localizá-lo nas mensagens do C. :-)

Mas vejo que meu ponto de vista encontra certa resistência. Tudo bem, eu não almejo a unanimidade, senão não teria o que escrever. Mas eu gostaria de elaborar um pouquinho o assunto, tornando-o mais concreto. Espero que você tenha paciência de ler.

Primeiro: "antes de pensar em cobrar dos motoristas (...), deve ser realizada uma reengenharia (...)". Não quero ser repetitivo, mas preciso insistir: minha preocupação é com o cidadão, o condutor, o pedestre. Enfim, com o lado de cá do problema. Sou motorista e sei o quanto é ruim nossa engenharia de trânsito, isso todo mundo sabe. Tenho queixas enormes contra a SMTT e o Detran. Mas sinceramente acho que esse não é o pior problema. O pior problema está na falta de consciência dos condutores, que em sua imensa maioria adotam uma postura agressiva e imprudente no trânsito, independentemente das condições, de péssimas a ótimas, das vias em que transitam. Não estou do lado da SMTT, estou do lado da Lei. Quero fazer uma analogia: todo mundo sabe que a omissão dos governos em relação à educação, à saúde, ao emprego, ao saneamento básico e à segurança são um terreno fértil para o crescimento do crime. Não se pode daí concluir que a polícia só deve prender criminosos depois que o governo cumprir sua parte em prover educação e emprego pra todos. Pelo mesmo raciocínio, não se pode exigir que condutores infratores só enfrentem conseqüências legais depois que tudo o mais no trânsito estiver em ordem. Se as condições são ruins, o motorista deve ser ainda mais prudente. Não menos.

Segundo: "semáforos de 100 em 100 metros". Cara, isso é horrível, mas pense, por exemplo, na Barão de Maruim: que fazer com todos aqueles cruzamentos? Tirar os semáforos? Você acha que isso os tornaria aqueles cruzamentos mais seguros pra todos? Não sou engenheiro de trânsito, mas consigo supor que a solução pra isso requereria um investimento gigantesco em viadutos ou coisa parecida. Qual a alternativa? Fechar todos os cruzamentos pra tornar a Barão livre e desimpedida? E quem trafega transversalmente? Se vira como? Dá voltas imensas? Ou alguém sai muitíssimo prejudicado na história ou todos terão de se conformar em compartilhar as vias e cada um aguardar a sua vez. Se você tem cruzamentos a cada 100 metros, é claro que você tem de andar a menos de 60, com ou sem semáforo, com ou sem radar, com ou sem guarda. Senão, a carnificina será inevitável.

Sobre o acidente com morte a capotamento: ninguém capota a 30 por hora. Claramente, a velocidade esteve envolvida no problema. Não estou dizendo que se tratou de velocidade excessiva. Ocorre que, se a sinalização é precária, o condutor precisa ser ainda mais prudente, não menos. É uma regra trivial de segurança no trânsito.

Vou lhe dar um exemplo: quando trafego por um bairro pouco conhecido, procuro atentar ainda mais para a sinalização. Sigo bem mais devagar do que de costume, e jamais passo num cruzamento sem reduzir o suficiente para ter tempo de evitar, ou ao menos minimizar, uma colisão lateral, ainda que eu tenha a preferência. Se não há sinalização, e isso ocorre muitíssimo, suponho que não tenho a preferência, e só passo se tiver certeza de que o caminho está livre. Ninguém morre (de tédio, de raiva, sei lá) fazendo assim. Sei que não é divertido nem emocionante, mas dirigir não é pilotar. Pilotagem se faz num autódromo ou numa via isolada e destinada para tal.

Finalizando, acrescento que minha preocupação não é com velocidade. É com infração, qualquer que seja ela. É com o desejo de impunidade, com o olhar apenas para o próprio umbigo e desejar uma via sempre desimpedida, livre de obstáculos, tais como pedestres, ciclistas, motociclistas, outros carros, semáforos, radares, guardas, multas e tudo mais, sem lembrar que o trânsito civilizado requer constante preocupação com o outro. Não estou te acusando de nada disso, só estou esclarecendo o foco de minha "cruzada". :-)

Um abraço,

Rosivaldo.



-----Mensagem original-----
De: c.@yahoogrupos.com.br [mailto:c.@yahoogrupos.com.br]Em nome de r.
Enviada em: segunda-feira, 24 de setembro de 2007 11:47
Para: c.@yahoogrupos.com.br
Assunto: [c.] Re: Off-topic: Semana de trânsito

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Trânsito, radar e "bom senso" (parte 4)

----- Original Message -----
From: r.
To: c.@yahoogrupos.com.br
Sent: Monday, September 24, 2007 11:47 AM
Subject: [c.] Re: Off-topic: Semana de trânsito


Pois eh...Gostei muito do texto, Rosivaldo. Mas em relação ao radares eu concordo plenamente com F. Antes de se pensar em cobrar dos motoristas a suposta educação, deve ser realizada uma reengenharia no transito (Outro exemplo: Os semáforos de 100 em 100 metros, que praticamente forçam o motorista a andar a menos de 60Km/h (de qualquer jeito)). Concordo também que, com o transito organizado atualmente, controlar velocidade é queixo duro. Me lembro que logo depois que a lei entrou em vigor, houve um acidente, inclusive com morte de pedestre, em um cruzamente le pelas bandas do centro, se não me engano, com carro capotado e o escambau...o que provocou? Velocidade? Não! o problema foi Sinalização! O que por sinal também é um grande problema na nossa capital!! muitas vias sem a sinalização adequada!! Muitas das placas foram colocadas por agora PORQUE A LEI IRIA ENTRAR EM VIGOR!! Claro que velocidade é um fator determinante na causa de acidentes...mas sem placa de "de preferência" ou sem placa de "Pare", por exemplo, independente de o motorista estar a 60Km/h ou 80Km/h...pode causar um acidente grave... :S

R. M. M.
(...)
--- Em c@yahoogrupos.com.br, "R. de A. R." <r.@...> escreveu (...)

sábado, 6 de outubro de 2012

Trânsito, radar e "bom senso" (parte 3)

----- Original Message -----
From: Rosivaldo Fernandes Alves
To: c.@yahoogrupos.com.br
Sent: Sunday, September 23, 2007 9:23 AM
Subject: RES: [c.] Off-topic: Semana de trânsito

Grande R.,

Concordo com cada palavra sua a respeito da SMTT e da falta de moral desta para exigir bom comportamento no trânsito. Só não tratei disso no texto por óbvia falta de espaço e porque considero essencial atacar o problema onde ele é mais grave (aprendi isso em Engenharia de Software :-): no comportamento do cidadão. Sim, porque há pouca esperança de mudança do lado de lá. Do lado de cá é que a solução reside. Os políticos e administradores picaretas só serão varridos do mapa por cidadãos realmente comprometidos com a ética, inclusive no trânsito. Enquanto vigorar esse cinismo selvagem, amparado no desengano e descrédito das instituições, tudo irá de mal a pior. Temos de ser melhores que nossos governantes para termos governantes melhores. E, verdade seja dita, não somos, pois nos desculpamos com o argumento de que transgredimos porque eles não prestam. Aí é cada um por si e Deus por todos.

Eu sei que é difícil ser educado na feira, mas nada realmente valioso se conquista facilmente. Temos de perseverar.

É um prazer trocar idéias.

Um abraço,

Rosivaldo.

-----Mensagem original-----
De: c.@yahoogrupos.com.br [mailto:c.@yahoogrupos.com.br]Em nome de R.
Enviada em: quarta-feira, 19 de setembro de 2007 17:44
Para: c.@yahoogrupos.com.br
Assunto: Re: [c.] Off-topic: Semana de trânsito

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Trânsito, radar e "bom senso" (parte 2)

----- Original Message -----
From: L.
To: c.@yahoogrupos.com.br
Sent: Friday, September 21, 2007 12:58 PM
Subject: Re: [c.] Off-topic: Semana de trânsito


Rosivaldo,

eu concordo plenamento com cada letra desse texto que você criou. E acho que todos deveriam passar para seus amigos, pois ele não se trata somente de um texto sobre o trânsito, mas também de como o brasileiro encara as leis no país. É por isso que temos esse políticos no poder, que querem e fazem tudo sem serem punidos. As leis que afetam a gnt não devem ser aplicadas, somente as que afetam os outros.

(...)

sábado, 29 de setembro de 2012

Trânsito, radar e "bom senso"

Há alguns meses, publiquei aqui um artigo sobre radares e trânsito. Ele não é novo, como eu já disse, e, na época em que o escrevi, tive a oportunidade de divulgá-lo por e-mail para meus então colegas de universidade. Sempre tive vontade de publicar aqui algumas das reações ao texto, bem como minhas "tréplicas". Começo a fazê-lo aqui. Pra evitar constrangimentos, preservo a identidade de meus interlocutores. Também não tentei fazer correções na grafia ou gramática.

----- Original Message -----
From: R.
To: c.@yahoogrupos.com.br
Sent: Wednesday, September 19, 2007 5:44 PM
Subject: Re: [c.] Off-topic: Semana de trânsito


Sobrou um tempinho entao li o seu mail...
Vou nem discutir pois acho q vc tem razão na maioria das coisas. Mas só vou concordar q o uso dos radares é um ato de melhoria do trânsito quando a SMTT for realmente atuante no q se diz respeito à melhoria do tráfego e não apenas a arrecadação. Gostaria de saber quem é o engenheiro de trânsito (devidamente capacitado) responsável e que permite aquele semáforo no jardins em frente ao bompreço, q coloca uma faixa de pedestre em cada lado do cruzamento (fica ateh bonito visto de cima), q permite estacionamento dos dois lados da via diminuindo o fluxo de carros e aumentando a probabilidade de acidentes, q molda o trânsito ao belprazer dos comerciantes, q faz obras em horário de pico nas vias de grande fluxo sem nem ao menos avisar, q fez aquele exemplo de cruzamento na francisco porto, q fez o elevado da saneamento literalmente troncho, q colocou um radar na descida desse elevado q soh permite ver o fluxo quando já está descendo etc. Fora q a SMTT é omissa no q se diz respeito às outras infrações como parar em faixa dupla, ônibus parar no meio da via pras pessoas descerem (e nao eh por falta de espaço), péssimos motoristas que dirigem no meio da via a 20Km/h prejudicando o trânsito, lixo jogados pelos carros etc. Pra mim radar é sim um meio rápido, barato e eficiente de arrecadar dinheiro. Fiscalizar a velocidade em ruas cheias de buraco pra mim é chover no molhado e sacanear com os motoristas q são imprudentes devido ao próprio descaso do órgão responsável por gerenciar o trânsito, com algumas excessões óbvio. Sugestão: faz uma pesquisa de quantos acidentes são causados não só pelo excesso de velocidade mas por buracos, atropelamentos de pedestres q teimam em andar pela rua pq a calçada não é da cor q ele gosta, local indevido de estacionamento, cruzamentos mal feitos, motoqueiros imprudentes etc. Acho q a culpa não é só da velocidade, até porque acho q aracaju tem muito buraco e muito carro estacionado na rua pra se conseguir andar rápido. Ao meu ver a SMTT daqui não tem moral alguma em pedir educação no trânsito. É dificil ser educado na feira.

domingo, 20 de maio de 2012

A terrível ameaça da volta dos radares

Nesta semana, ouvi no rádio que a prefeitura de nossa capital está tomando as providências para o retorno da fiscalização eletrônica do trânsito. Óbvio, o assunto incomoda muita gente. Infelizmente, quase todos que conheço. Pra variar, os radialistas que deram a "má notícia" demonstraram, como em várias outras vezes, que ficariam mais confortáveis não tendo que anunciar tal novidade.

Não posso me dar ao luxo de escrever sobre o tema no momento. Então aproveito um texto que escrevi em junho de 2007. Ele merece alguns reparos, pois foi escrito com pressa, na tentativa de que fosse publicado em tempo hábil. Mesmo assim, acho que sua essência permanece válida para aquele tempo e para hoje.

Um pouco de contexto: naquela época, a prefeitura acabara de reduzir o limite de velocidade em algumas avenidas, que era de 80 km/h, para 60 km/h. Isso gerou revolta entre os motoristas, e estes contaram com o apoio irresponsável e demagógico de grande parte da imprensa local.


Radares, demagogia e honestidade

Antes de tudo: não tenho nenhuma simpatia política ou pessoal por quem governa atualmente Aracaju ou Sergipe. Nem pelos que governavam antes. Portanto, nada do que digo aqui pretende defender os grupos políticos que sustentam ou sustentavam esses governos. Também adianto que sou totalmente contra o uso de multas de trânsito como forma de arrecadação para os cofres públicos, pois isso faz o governante desejar o maior número possível de infrações, que ao ser multadas só aumentam a receita do órgão público interessado. Quero deixar claro que minha maior preocupação reside do lado de cá, no que se passa na cabeça do cidadão, e na forma demagógica como o assunto tem sido tratado pela imprensa aracajuana.

Meu primeiro questionamento é sobre a queixa de que a SMTT não educa e prefere multar. De que tipo de educação estamos falando? Vejamos: qual motorista não sabe que tem de obedecer a uma placa que limita a velocidade de uma via a 20, 40, 60 ou – vá lá – 80 km/h? Ou que tem de parar diante da faixa de pedestre para que este atravesse? Ou que é proibido ultrapassar em via com faixa contínua? Eu já vi reportagens de TV em que motoristas flagrados em infrações como essas reclamam que em vez de ser multados deveriam ser educados. Mas se um motorista não sabe alguma dessas regras, não deveria estar sequer habilitado, quanto mais dirigindo! E se sabe, não há porque exigir ser educado para obedecer. Tem de obedecer e pronto. Saber não basta? É preciso que o motorista passe meses ou anos sendo adulado por guardas gentis, que não multam ninguém, e que só repetem o que todo motorista já está careca de saber, para que todos se convençam de que as leis de trânsito precisam ser respeitadas? Perdão, mas o nome disso é cinismo.

Meu segundo questionamento é que a imprensa local é totalmente tendenciosa ao ficar claramente do lado de quem reclama da possibilidade de ser multado. O que queremos então? A impunidade? Queremos que a sinalização, da placa ou do semáforo, valha somente pra quem quiser obedecer? É só uma sugestão? Quem quiser desobedecer, pode? É pra ficar por isso mesmo? Que tipo de trânsito os jornais estão defendendo? Não se vê uma palavra de reprovação ao comportamento de motoristas que fazem de Aracaju uma cidade com mortalidade no trânsito duas vezes maior que a de São Paulo! Lamentável. Em países civilizados, infração de trânsito é crime1 que além de multa dá cadeia, de onde você só sai pagando fiança, como tantas vezes vemos acontecer com celebridades mundiais flagradas nessa situação. Aqui, um país campeão mundial em mortes no trânsito, jornalistas e políticos ganham a simpatia da população ao exigir menos rigor na aplicação da lei. Esse é um tipo de demagogia extremamente perniciosa, porque privilegia o desejo de impunidade ao custo de dezenas de milhares de vidas por ano.

Diminuindo os limites de velocidade em Aracaju, a SMTT apenas corrigiu uma situação que era realmente ilegal2, porque a lei de trânsito determina que nas cidades o limite de 80 km/h só deve existir em vias3 onde não há cruzamentos, semáforos nem passagem de pedestres. Até o acesso a essas vias deve se dar por pistas paralelas, jamais por entradas laterais. Aracaju simplesmente não tem avenidas assim. Obviamente, o trânsito de Aracaju já não comporta pistas tão lentas como as atuais. Então nossa cobrança deveria ser pela criação de vias rápidas para escoar melhor o tráfego, jamais pela desobediência generalizada às leis de trânsito. Por exemplo, exigir que não haja radar ou que ele seja anunciado com antecedência e que esteja bem visível é como exigir que não haja polícia ou que ao menos ela avise ao criminoso antes de agir, para que este tenha tempo de esconder as provas do seu crime. O motorista não pode se sentir no direito de ignorar a placa que limita a velocidade e fingir que a respeita somente onde há radar. O nome disso é desonestidade, que infelizmente virou lei por pressão de uma sociedade que prefere não ser cobrada pelas infrações que comete.

Ao cidadão que se sente lesado pela SMTT, eu aconselho: não ultrapasse a velocidade permitida, não avance o sinal, respeite a faixa de pedestre, não ultrapasse em local proibido, etc. Agindo assim, nenhum centavo seu vai parar nos cofres da prefeitura. Mesmo que haja um radar invisível em cada esquina ou a cada cinqüenta metros. Obedeça à lei pelo desejo de ser decente. Nosso país precisa de gente assim. Se, ao invés disso, brigamos pelo direito de desobedecer impunemente à lei, estamos legitimando toda a corrupção que arrasa o nosso país. Não podemos reclamar de políticos trambiqueiros e ao mesmo tempo exigir o direito de sermos trambiqueiros no trânsito. Pois, como diz o Evangelho (permitam-me a referência religiosa neste espaço laico), só merece confiança no muito quem é fiel e honesto no pouco.

1 Na verdade, nem toda infração; mesmo aqui, algumas infrações são crime.
2 Não sou profissional do Direito, mas uma consulta posterior me fez perceber que talvez não houvesse ilegalidade. Ver CBT (Lei 9.503/1997), art. 60, §2º. A meu ver, no entanto, havia no mínimo irresponsabilidade.
3 Ver CBT, artigos 60 e 61, e a definição “VIA DE TRÂNSITO RÁPIDO” no Anexo I.

domingo, 28 de agosto de 2011

Quando a civilidade é só para os idiotas

Cena 1

Depois de esperar pacientemente minha vez de passar num cruzamento com semáforo, tive de tirar o pé pra não esbarrar com um motociclista que, sem a menor cerimônia, achou que o sinal vermelho pra ele lhe dava muito mais direito de passar do que o verde pra mim. Pior, antes de cruzar comigo, ele ultrapassou rapidamente vários carros já parados por conta do mesmo sinal vermelho. Não pude deixar de me lembrar que, na minha cidade, a maioria absoluta dos motoristas acha absurdo que um semáforo tenha fotossensor para multar os que avançam o sinal. No momento, nenhum semáforo o tem, porque o contrato da prefeitura com a empresa que administrava os equipamentos de fiscalização eletrônica foi rescindido devido a irregularidades cometidas por essa empresa em outros Estados. Jornalistas engrossam o coro dos que querem o fim dos fotossensores e radares. Políticos fazem disso sua plataforma de campanha eleitoral. E são eleitos. Pra mim, essa gente toda não passa de uma canalha.

Cena 2

No estacionamento do shopping, vejo uma mulher guardando as compras no porta-malas do carro. Sua filha, em pé dentro do carrinho de compras, pega dois sacos plásticos de acomodar frutas ou verduras, não usados, e joga no chão do estacionamento. A mãe faz vista grossa. Enquanto eu cato as coisas de que vou precisar para sair do carro e fazer minhas compras, assisto essa cena e fico indignado. A mulher empurra o carrinho pro lado, acomoda a filha no banco de trás e ignora os sacos plásticos largados no chão. Entra, liga o carro e vai sair. Eu já estou farto de ver cenas desse tipo. Antes que ela saia, pego calmamente os sacos no chão, percorro a lateral direita do carro e prendo os dois sacos na palheta do limpador de para-brisa. Ela demonstra surpresa e eu digo em um tom capaz de atravessar os vidros fechados: “Você esqueceu de recolhê-los”. Ela tenta se explicar: “Eles 'caíram' do carrinho...”. Eu não perco a calma, mas minha paciência se esgota. Abandono o papel de quem acredita que ela “esqueceu”. Respondo: “É, mas não lhe custava tê-los pegado”. Acho que ela fica chateada. Parece-me que ela desprendeu o cinto e saiu do carro para recolher os plásticos. Espero que o tenha feito porque eu não tinha interesse de ficar pra ver. Dei as costas e fui embora.
A essa altura, meus pensamentos eram mais ou menos esses: a classe média é a escória da nossa sociedade. Não dispõe sequer da desculpa de não ter tido oportunidade, de não ter estudado, de não ter dinheiro, de não ter instrução. Age desse modo por grosseria pura e simples, travestida de indolente desleixo. Nesse comportamento está a raiz de vivermos num dos países mais injustos, corruptos e desumanos do mundo. Ah, mas eles vão ouvir. De mim, vão.

Destaque

Todas as famílias da Terra

Grandes foram as civilizações da Mesopotâmia: Suméria, Acádia, Assíria, Babilônia; imortais, os seus nomes: Gilgamés, Sargão, Hamurábi, Assu...