domingo, 20 de maio de 2012

A terrível ameaça da volta dos radares

Nesta semana, ouvi no rádio que a prefeitura de nossa capital está tomando as providências para o retorno da fiscalização eletrônica do trânsito. Óbvio, o assunto incomoda muita gente. Infelizmente, quase todos que conheço. Pra variar, os radialistas que deram a "má notícia" demonstraram, como em várias outras vezes, que ficariam mais confortáveis não tendo que anunciar tal novidade.

Não posso me dar ao luxo de escrever sobre o tema no momento. Então aproveito um texto que escrevi em junho de 2007. Ele merece alguns reparos, pois foi escrito com pressa, na tentativa de que fosse publicado em tempo hábil. Mesmo assim, acho que sua essência permanece válida para aquele tempo e para hoje.

Um pouco de contexto: naquela época, a prefeitura acabara de reduzir o limite de velocidade em algumas avenidas, que era de 80 km/h, para 60 km/h. Isso gerou revolta entre os motoristas, e estes contaram com o apoio irresponsável e demagógico de grande parte da imprensa local.


Radares, demagogia e honestidade

Antes de tudo: não tenho nenhuma simpatia política ou pessoal por quem governa atualmente Aracaju ou Sergipe. Nem pelos que governavam antes. Portanto, nada do que digo aqui pretende defender os grupos políticos que sustentam ou sustentavam esses governos. Também adianto que sou totalmente contra o uso de multas de trânsito como forma de arrecadação para os cofres públicos, pois isso faz o governante desejar o maior número possível de infrações, que ao ser multadas só aumentam a receita do órgão público interessado. Quero deixar claro que minha maior preocupação reside do lado de cá, no que se passa na cabeça do cidadão, e na forma demagógica como o assunto tem sido tratado pela imprensa aracajuana.

Meu primeiro questionamento é sobre a queixa de que a SMTT não educa e prefere multar. De que tipo de educação estamos falando? Vejamos: qual motorista não sabe que tem de obedecer a uma placa que limita a velocidade de uma via a 20, 40, 60 ou – vá lá – 80 km/h? Ou que tem de parar diante da faixa de pedestre para que este atravesse? Ou que é proibido ultrapassar em via com faixa contínua? Eu já vi reportagens de TV em que motoristas flagrados em infrações como essas reclamam que em vez de ser multados deveriam ser educados. Mas se um motorista não sabe alguma dessas regras, não deveria estar sequer habilitado, quanto mais dirigindo! E se sabe, não há porque exigir ser educado para obedecer. Tem de obedecer e pronto. Saber não basta? É preciso que o motorista passe meses ou anos sendo adulado por guardas gentis, que não multam ninguém, e que só repetem o que todo motorista já está careca de saber, para que todos se convençam de que as leis de trânsito precisam ser respeitadas? Perdão, mas o nome disso é cinismo.

Meu segundo questionamento é que a imprensa local é totalmente tendenciosa ao ficar claramente do lado de quem reclama da possibilidade de ser multado. O que queremos então? A impunidade? Queremos que a sinalização, da placa ou do semáforo, valha somente pra quem quiser obedecer? É só uma sugestão? Quem quiser desobedecer, pode? É pra ficar por isso mesmo? Que tipo de trânsito os jornais estão defendendo? Não se vê uma palavra de reprovação ao comportamento de motoristas que fazem de Aracaju uma cidade com mortalidade no trânsito duas vezes maior que a de São Paulo! Lamentável. Em países civilizados, infração de trânsito é crime1 que além de multa dá cadeia, de onde você só sai pagando fiança, como tantas vezes vemos acontecer com celebridades mundiais flagradas nessa situação. Aqui, um país campeão mundial em mortes no trânsito, jornalistas e políticos ganham a simpatia da população ao exigir menos rigor na aplicação da lei. Esse é um tipo de demagogia extremamente perniciosa, porque privilegia o desejo de impunidade ao custo de dezenas de milhares de vidas por ano.

Diminuindo os limites de velocidade em Aracaju, a SMTT apenas corrigiu uma situação que era realmente ilegal2, porque a lei de trânsito determina que nas cidades o limite de 80 km/h só deve existir em vias3 onde não há cruzamentos, semáforos nem passagem de pedestres. Até o acesso a essas vias deve se dar por pistas paralelas, jamais por entradas laterais. Aracaju simplesmente não tem avenidas assim. Obviamente, o trânsito de Aracaju já não comporta pistas tão lentas como as atuais. Então nossa cobrança deveria ser pela criação de vias rápidas para escoar melhor o tráfego, jamais pela desobediência generalizada às leis de trânsito. Por exemplo, exigir que não haja radar ou que ele seja anunciado com antecedência e que esteja bem visível é como exigir que não haja polícia ou que ao menos ela avise ao criminoso antes de agir, para que este tenha tempo de esconder as provas do seu crime. O motorista não pode se sentir no direito de ignorar a placa que limita a velocidade e fingir que a respeita somente onde há radar. O nome disso é desonestidade, que infelizmente virou lei por pressão de uma sociedade que prefere não ser cobrada pelas infrações que comete.

Ao cidadão que se sente lesado pela SMTT, eu aconselho: não ultrapasse a velocidade permitida, não avance o sinal, respeite a faixa de pedestre, não ultrapasse em local proibido, etc. Agindo assim, nenhum centavo seu vai parar nos cofres da prefeitura. Mesmo que haja um radar invisível em cada esquina ou a cada cinqüenta metros. Obedeça à lei pelo desejo de ser decente. Nosso país precisa de gente assim. Se, ao invés disso, brigamos pelo direito de desobedecer impunemente à lei, estamos legitimando toda a corrupção que arrasa o nosso país. Não podemos reclamar de políticos trambiqueiros e ao mesmo tempo exigir o direito de sermos trambiqueiros no trânsito. Pois, como diz o Evangelho (permitam-me a referência religiosa neste espaço laico), só merece confiança no muito quem é fiel e honesto no pouco.

1 Na verdade, nem toda infração; mesmo aqui, algumas infrações são crime.
2 Não sou profissional do Direito, mas uma consulta posterior me fez perceber que talvez não houvesse ilegalidade. Ver CBT (Lei 9.503/1997), art. 60, §2º. A meu ver, no entanto, havia no mínimo irresponsabilidade.
3 Ver CBT, artigos 60 e 61, e a definição “VIA DE TRÂNSITO RÁPIDO” no Anexo I.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O trigo nosso de cada dia – e suas lições


Em dois artigos anteriores1, tratei do antagonismo, sustentado pelo senso comum, entre o natural e o artificial. Deixei no ar a pergunta: o potencial de dano à natureza, por parte de um artefato ou procedimento, seria diretamente proporcional ao grau de artificialidade envolvido no mesmo?

Tomemos como exemplo o alimento mais consumido pelos seres humanos: o trigo, cuja farinha é usada no preparo de inúmeros tipos de comida. Refinada, essa farinha perde muitos de seus nutrientes, além de se tornar mais indigesta. Está aqui uma forma muito simples de artificialidade, conhecida há milênios, que nada tem de sofisticada. Não envolve engenharia química ou genética, transgenia nem física nuclear. Mesmo assim, é reconhecidamente danosa para a saúde humana. Não é à toa que profissionais de saúde recomendam, a quem quer ter uma vida saudável, trocar a farinha refinada pela integral.

Por que uma coisa tão básica – o peneiramento de uma farinha para remover farelo e germe nela incluídos – é capaz de resultar num prejuízo nutricional tão grande? Porque a adequação do trigo à alimentação humana é o resultado de um delicado equilíbrio construído ao longo de toda a história evolutiva das duas espécies, uma história que tem milhões de anos – bilhões, se contarmos o período pré-cambriano da vida2. É muito difícil alterar qualquer dos elementos dessa relação interespecífica sem quebrar esse equilíbrio. Num certo sentido, as adaptações por que humanos e trigo passaram para se adequar tão bem um ao outro embutem uma forma de conhecimento que não pode ser adquirido de modo trivial, o que torna muito improvável melhorar essa relação num golpe de sorte. Isso porque somos – os seres vivos – uma espécie de laboratório em permanente experimentação, numa sinergia que envolve inúmeros ciclos de tentativa e erro ao longo de milhões de gerações. As experiências infelizes são descartadas via seleção natural. As bem-sucedidas permanecem pela transmissão do sucesso genético à descendência de cada espécie. Não dá pra competir com o conhecimento acumulado por esse laboratório sem primeiro entender os detalhes de seu funcionamento. Daí muitas de nossas intervenções resultarem em prejuízos, quando não em desastres.

Seria o caso de jogar a toalha e reconhecer que não há como melhorar a natureza? Que qualquer “mexidinha” vai quebrar o delicado cristal que nos foi legado? Talvez, se acreditarmos que a natureza é perfeita e que o perfeito só pode ser mudado para pior. Mas não é o caso. Por exemplo, um pequeno percentual de seres humanos é geneticamente – leia-se naturalmenteintolerante ao glúten contido no trigo e em cereais aparentados. A essa intolerância dá-se o nome de doença celíaca, que tanto pode ser assintomática como, no extremo, causar câncer. Essas pessoas têm de passar longe do trigo e de qualquer outra fonte de glúten. Nossa adaptação ao trigo não é perfeita. Simplesmente porque a natureza não o é, pelo menos não no sentido de que faz tudo da melhor forma possível para nós, humanos3.

A natureza nos desafia com inúmeros perigos, na forma de doenças congênitas, epidemias, intempéries, hecatombes e ameaças globais de extinção. É ingenuidade supor que somos os queridinhos dela e que para não ter problemas basta sermos bem comportados. E que todo nosso infortúnio, especialmente no âmbito da saúde, se deve a alguma “malcriação” da nossa parte4. As coisas não funcionam assim. A mesma genética que faz alguns de nós intolerantes ao glúten nos dá nossa cota de daltônicos, anêmicos falciformes, intolerantes à lactose, diabéticos tipo 1, leucêmicos infantis e outros “naturalmente” desafortunados. Ratos causam doenças contagiosas e mortais, gafanhotos podem arrasar plantações inteiras, furacões podem destruir cidades. Tudo isso desde muito antes de o homem ser capaz de causar em larga escala qualquer desequilíbrio ambiental ou, especificamente, climático. Que ação humana pode ser responsável pela explosão de Krakatoa ou pelo grande tsunami de 2004? Quem de nós será culpado por uma eventual queda de asteroide capaz de varrer a humanidade da face da terra?

Esses exemplos extremos revelam que nem sempre a salvação vem da adesão estrita aos processos naturais. Pelo contrário, muitas vezes só é possível escapar subvertendo a natureza e recorrendo ao que só nós, humanos, somos capazes de fazer. Nem sempre somos os vilões da história. Munidos do conhecimento devido, ainda podemos sair como heróis.

Respondendo à pergunta que fechou o primeiro parágrafo, podemos concluir que o problema de interferir na natureza não está na intensidade dessa interferência, mas no grau de (des)conhecimento que temos em relação ao processo natural em que interferimos. Os detalhes disso ainda rendem outro artigo.


2 Estou contando aqui adaptações que precedem o consumo direto de trigo por humanos, iniciado há uns 11.500 anos.

3 Uma parcela de meus leitores, criacionistas que são, talvez fique um tanto chocada com minhas afirmações. Mas a imperfeição da natureza é reconhecida até na Bíblia. Um exemplo dessa constatação está em Romanos 8:20 a 22.

4 Permitam-me mais um exemplo bíblico: os discípulos achavam exatamente isso, mas Jesus lhes corrigiu o equívoco. João 9:1 a 3.

sábado, 17 de dezembro de 2011

A omissão a serviço da mentira

Dá pra ver que eu não tenho muito tempo pra escrever. Na verdade, tenho pouco tempo pra ler também, mas tento não me desligar dos assuntos em pauta no mundo pensante. Muito raramente, resolvo me manifestar. Há uma semana, resolvi me pronunciar sobre um post de Reinaldo Azevedo em seu blog, mantido pela revista Veja. Sim, meu texto é contundente, mas ninguém que tenha lido Reinaldo Azevedo pode me acusar de ser mais agressivo do que ele costuma ser. Espero até hoje. Meu comentário não foi publicado. O que não me surpreende, dado o histórico de censura despudorada que o tal blogueiro chama de "moderação". Ele sempre se gaba de não deixar "petralhas" sujar o blog dele. Mas acho que estou em boa companhia. Dias antes do meu comentário ser escrito, eu li um texto revelador do jornalista Phellipe Marcel da Silva Esteves. Sugiro a leitura a todos que imaginam haver alguma honestidade no modo como esses blogs da grande imprensa são conduzidos. Ou mesmo àqueles que gostam de ver suas suspeitas, ou mesmo convicções, confirmadas. Segue abaixo o meu (longo) comentário. Faço uma ressalva ao meu elogio a Augusto Nunes: vi hoje que ele também pode ser muito deselegante com os comentaristas que não se alinham com ele.

Caro Reinaldo Azevedo,

Não concordo com sua autodefesa. Via de regra, seus textos são agressivos, mal-educados, grosseiros, estúpidos mesmo. Não, eu não vou me dar ao trabalho de apontar onde, quando e como se dá isso. Já é muito o tempo que lhe dedico nesse
[errata: "neste"] comentário. Além do mais, não me cabe ensinar a um homem feito, tão seguro de si, detalhes de como se comportar no embate de ideias. E não adianta recorrer a sua tão cara retórica de dizer que de nada vale o que escrevo porque não exemplifico, não "provo" o que estou afirmando. Qualquer pessoa decente é capaz de ponderar sobre uma crítica, ainda que genérica, acerca do seu modo de agir. Pondere. E não apele para o desprezo ou a desqualificação do interlocutor só porque ele não se dispõe a cumprir seus "requisitos" para criticá-lo. Isso é muita soberba.

Se me permite a sugestão, que tal trocar umas ideias com seu amigo Augusto Nunes? Ele é contundente no combate à mediocridade,  vigarice, corrupção e falta de pudores com que o PT e seus asseclas nos têm massacrado nesses longos e tristes nove anos. Mas ele jamais perde a elegância, ao contrário de você, que, de tão deselegante, repetidas vezes me faz sentir vergonha alheia. Você recorre a gabolices, notadamente quando se jacta de brandir a lógica com destreza insuperável. Meu caro profissional das palavras, se lógica bastasse, a filosofia teria se esgotado em Platão ou, no máximo, Aristóteles. E eu já vi você recorrer a silogismos tão ridículos que me soaram desonestos.

Ah, não posso esquecer: é muita grosseria sua barrar qualquer comentário que defenda a legalização das drogas (baseio-me em suas próprias afirmações, já que quase nunca leio os comentários a seus textos). Muitas pessoas inteligentes, honestas, decentes e "limpas" defendem essa legalização em maior ou menor grau. Não é certo barrar a opinião delas apenas porque contrariam sua retórica "infalível". Dê uma olhada no blog do Sakamoto, por exemplo (http://blogdosakamoto.uol.com.br/). Muitos dos leitores dele massacram sem pena o que ele escreve. E nem por isso são barrados. O português dele não é impecável como o seu, as ideias dele não têm o peso da revelação divina que as suas têm, mas ele tem muito mais espírito democrático que você, a despeito de toda a sua pretensa defesa da democracia. Eu sei que o blog é seu, que você faz dele o que quiser, mas o próprio fato de ser um blog tão acessado faz dele um espaço público para o confronto de ideias. Sua "censura" ao que não condiz com suas convicções é um desrespeito ao público, para quem você abriu esse espaço (ou você acha que isso não tem ônus?), inclusive porque introduz um viés de aparente uniformidade onde há de fato uma considerável discordância "reprimida". Mais uma vez, isso não soa honesto.

Não estou aqui fazendo apologia às drogas, muito menos ao crime. Apenas acho que a legalização não é uma ideia que possa ser descartada a priori. Tem de ser pensada, exposta e submetida à critica como qualquer outra proposta honesta de solução. A propósito, jamais usei qualquer tipo de droga e tenho nojo de todas elas, inclusive das drogas "legais" que já vi você saborear em seus vídeos autopromocionais.

Por fim, saiba que não escrevo estas linhas nem leio seu blog por "Reinaldo-dependência" (outra expressão nascida de sua pouca modéstia). Meu comentário tem por alvo muito mais os seus leitores do que você. Quero que eles saibam que existem seres educados e não "esquerdopatas" capazes de discordar de suas verdades. Tenha a decência de publicar minhas palavras. Quanto a lê-lo, saiba que eu sempre dediquei algum tempo a ler, escutar e assistir gente que pensa diferente de mim, inclusive aqueles cujas ideias muitas vezes me soam repulsivas. Isso nunca me empobreceu, pelo contrário. Eu apenas não tenho medo de pôr minhas concepções à prova.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Emergindo...

Depois de muitas semanas, estou (mais ou menos) de volta. O que parecia ser um pequeno contratempo revelou-se um obstáculo intransponível. Tive de contornar. De fato, ainda não terminei. Mas, espero, em breve vocês poderão ler novos textos neste blog.

sábado, 10 de setembro de 2011

A natureza contra a arte? (parte 2)

Depois de tentar reabilitar a “reputação” da artificialidade, pretendo esticar a corda mais um pouco. Começarei por dizer que a dicotomia entre natural e artificial é – hã... – artificial. Sim, por estranho que pareça, esta é a realidade, o que eu espero deixar claro no decorrer deste texto.
Permitam-me começar com uma comparação. Achamos “natural” ver formigas transitando e transportando comida ou outros itens em verdadeiras estradas abertas no mato por elas mesmas. Nossas rodovias, no entanto, são vistas como coisas estranhas à natureza, quando a única diferença está no tamanho, na tecnologia usada, e no grau de impacto ambiental. Este último, aliás, as formigas também causam. Assim como os castores, que derrubam árvores e constroem diques em rios para garantir alimento e segurança. Nada muito diferente do motivo que nos leva a construir enormes e impactantes represas. Se uma raça extraterrestre, tão avançada que fôssemos para ela como formigas são para nós, pousasse por aqui, não veria nada de especial em nossas realizações. Estas seriam vistas como resultado natural da atividade de abundantes bichinhos bípedes que fervilham na superfície deste planeta. Seríamos vistos apenas como parte integrante da natureza, como de fato somos. Só o chovinismo impede que muitos de nós enxerguem isso.
De tais considerações decorre que, se artificial é tudo que foi feito pelo ser humano, e o ser humano é inescapavelmente parte da natureza, ora, tudo que o ser humano faz também o é, sendo, portanto, natural. No fim das contas, “artificial” não é uma categoria à parte de “natural”, menos ainda uma categoria antagônica a esta. Trata-se de uma subcategoria. Embora nem tudo que é natural seja artificial, tudo que é artificial é necessariamente natural1. É um raciocínio aristotélico.
Fora o possível prazer de alcançá-la – pensar é (quase) sempre agradável –, que importância tem essa conclusão? Bem, muita gente é incentivada a considerar tudo que o ser humano produz uma espécie de degeneração, de corrupção daquilo que a sábia natureza nos proporcionou. Creio que a conclusão acima permite-nos avaliar mais positivamente aquilo que nós fazemos.
Afinal, se pensarmos um pouco melhor, veremos que uma vida totalmente “natural” é impossível ou, no mínimo, inviável. Teríamos de viver como macacos, coletando frutos e raízes, sem roupas, abrigados em árvores ou cavernas, porque tudo que passa disso requer algum grau de artificialidade. Até a narrativa bíblica da criação diz que “Deus colocou o homem no jardim do Éden para cuidar dele e cultivá-lo”2. Ora, se até o paraíso perfeito, recém-saído das mãos do próprio Criador, requeria cultivo, que dizer dos recursos “naturais” de que dispomos hoje? Agricultura, por definição é uma atividade humana, de transformação da natureza, portanto, uma artificialidade. E é muito mais eficiente em nos prover alimentos do que o simples extrativismo. A propósito, as formigas também praticam “agricultura”, cultivando fungos, e “pecuária”, criando e “ordenhando” pulgões para extrair deles uma secreção rica em nutrientes. O que apenas reforça a identidade do que fazemos com tudo mais que se faz no mundo “natural”. Continuando, só usamos roupas porque “subvertemos” a natureza, extraindo pelos de animais ou fibras de plantas e produzindo com eles os tecidos de que nos servimos para abrigo do frio e de outras agressões da – adivinhem – natureza. Esta, de si mesma, jamais nos traria pronta essa proteção. O mesmo se pode dizer de nossas construções. Estaríamos muito mais vulneráveis se nos contentássemos apenas com as árvores e cavernas intocadas.
Por óbvio que pareça o raciocínio acima, ele é passado por alto sempre que alguém imagina que nossa vida seria muito melhor se só aquilo que é “natural” fosse usado para comer, beber, tomar como remédio ou adotar como tratamento. Levado ao limite, esse modelo de vida revela-se insustentável. Só como exemplo, não se cozinha feijão apenas por conveniência. Feijão não cozido é tóxico. E que dizer da mandioca? É mortal, a menos que sua toxina seja eliminada por um procedimento bem conhecido desde os indígenas. São apenas dois exemplos em que o produto “artificial”, ou seja, depois de passar por um processamento que só humanos podem fazer, é melhor que o “natural”. Mesmo um crudívoro terá de tomar alguma providência antes de usar esses alimentos in natura, tornando-os, em algum grau, artificiais.
No fim das contas, quase tudo que extraímos da natureza tem de ser transformado de alguma forma para que possamos usá-lo. E é nessa transformação que introduzimos a artificialidade. Isso não implica que o artefato oriundo desse processo evadiu-se da natureza, tornando-se coisa estranha à mesma, ou que se tenha degradado e renegado sua origem. Trata-se de natureza transformada, mas ainda natureza. Como nós.
Certamente, enxergar numa coisa artificial apenas um tipo específico de coisa natural, não o seu contrário, não nega que há uma enorme diferença entre plantar milho, construir uma casa ou confeccionar uma roupa e produzir um adoçante a partir do petróleo, transformar corantes têxteis em antibióticos ou submeter uma pessoa à quimioterapia na esperança de que esta mate o câncer antes de matar o paciente. Seria o caso de imaginar que pouca artificialidade é aceitável e que o problema começa quando ela vai longe demais? Até onde vejo, não mora aí a raiz do problema. Mas isso é assunto pra outro post. Até lá.


1 Em computação, diríamos que “artificial” é uma subclasse de “natural”.
2 Gênesis 2:15.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Analfabeto ou doutor?

As duas últimas semanas foram marcadas, no mundo do futebol, pela notícia do internamento de Sócrates, o “Doutor” Sócrates, na UTI do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Revelou-se depois que tudo era consequência tardia de nada menos que alcoolismo, a despeito de uma abstinência que já duraria três meses, segundo o próprio ex-jogador em entrevista concedida após sua alta. No momento em que escrevo estas linhas, ele está de volta à UTI, em estado grave.
O caso é emblemático pra mim, porque traz à tona um pensamento que tenho nutrido há muitos anos, e que nasceu de ouvir a inusitada afirmação de um então colega de trabalho que, diante de um papel com anotações manuscritas quase ilegíveis, sapecou: “Quem escreveu isto aqui, das duas uma: era analfabeto ou doutor”. Não sei se a frase era original ou não, mas era a primeira vez que eu a ouvia. Achei divertida e genial. Afinal, quem nunca se revoltou ao tentar decifrar uma receita médica em que o “doutor” caprichou para que ninguém a lesse? Sim, mas o que isso tem a ver com o “Doutor” Sócrates, fora o fato de ser ele médico formado? Eu chego lá.
Voltando à tirada de meu ex-colega, se pararmos pra pensar, é muito curioso que os dois extremos da escala de instrução formal tenham em comum exatamente a incapacidade de se comunicar por escrito. Mas há algo bem além da mera curiosidade nesse fato. Posso estar equivocado, e terei prazer em ser corrigido por quem conhecer mais do assunto, mas desde que ouvi essa inesperada equiparação, não consigo me livrar da sensação de que existe algo deplorável por trás dela. Se numa ponta está um (semi)analfabeto, incapaz de escrever de modo legível porque não aprendeu a fazê-lo, na outra está uma pessoa que alcançou tão alto patamar na formação acadêmica que se acha isenta da obrigação de se fazer entender. Pior: escrever o que ninguém pode ler é sinal de status. Confirma sua posição acima e além dos meros mortais. A estes resta se conformar com sua mediocridade e obedecer ao ditame social que os obriga a escrever de modo inteligível.
Curiosamente, também há alguns anos, vi anunciado o resultado de uma pesquisa na qual se concluía que o percentual de pessoas dependentes do cigarro era bem maior nas camadas menos instruídas da população. Eu teria de ir atrás de mais dados, e confesso que estou sem tempo agora, mas arrisco dizer que mais ou menos a mesma coisa acontece em relação ao abuso de bebidas alcoólicas. Trata-se de outra notícia que faz pensar: porque as pessoas mais instruídas preferem não fumar? Ou não beber, pelo menos não ao ponto de se tornarem dependentes? Obviamente, o acesso à informação (que faz o indivíduo pensar duas vezes antes de se meter numa roubada crônica) e o melhor nível de renda (que cria mais opções de autossatisfação) têm um importante papel na formação desse perfil mais saudável dos mais instruídos. Mas tem uma coisa que essa pesquisa parece ter deixado de fora. Os “mais instruídos” que a média. Não falo aqui de médicos, nem de bacharéis ou mesmo de doutores do mundo acadêmico. Falo de uma classe especial, acima até destas últimas: os intelectuais.
Sim, eu fico impressionado com a popularidade do cigarro e da bebida entre os intelectuais, especialmente aqueles que parecem achar que vão transformar – melhor, salvar – o mundo a partir de suas mesas de bar. Perdão, é preciso fazer um reparo: bar é coisa de gente sem nível, sem instrução, sem dinheiro, sem classe. Intelectual frequenta barzinho. E não é desregrado, é boêmio. Não é dependente nem viciado: usa drogas, nem sempre lícitas, como forma de usufruir da vida sem as limitações caretas da burguesia hipnotizada pelo discurso bom-moço da mídia pasteurizada. É marca registrada da “intelectualidade” não se negar esses gratificantes prazeres.
Quando Carlos Heitor Cony se insurge contra as campanhas antitabagistas alegando que são crias do puritanismo norte-americano; quando João Ubaldo Ribeiro, em plena luta contra o alcoolismo, ridiculariza a busca frenética pela qualidade de vida à custa de não beber, não fumar, não perder noite; quando Gilberto Gil chama de “alteradores de consciência”, coadjuvantes da atividade criativa, as drogas de sua juventude tropicalista, quem vai se contrapor a dois imortais da ABL e a um ex-Ministro da Cultura? Eu não consigo evitar o paralelo com a (falta de) caligrafia: o cara que bebe e fuma ou é um ignorante ou um intelectual, com a diferença de que na primeira hipótese esses “hábitos” são vício; na segunda, são virtude. No meio, estão os (semi)abstêmios, eufemismo para medíocres. Os que habitam o topo dessa “hierarquia” parecem se achar isentos do alto imposto que cigarro (ou suas variantes: charuto, cachimbo, etc.) e bebida cobram na forma de câncer, cirrose, enfisema, AVC... Parece que esse preço só vai ser pago pela plebe ignara, da qual não fazem parte. Não consigo deixar de ver nessa atitude a mesma empáfia de um “doutor” que avia receitas em hieroglifos maias.
Cumprindo minha promessa, volto ao “Doutor” Sócrates. Além de “doutor”, ele é sabidamente um intelectual, fundador da Democracia Corintiana, um cara de raciocínio acima da média, politizado, bom de papo, tudo que um grande pensador pode ser. E um alcoólatra. O triste disso tudo é sua dependência do álcool não é novidade nenhuma, mas nunca foi considerada como tal. A mídia jamais mencionou isso, embora qualquer observador atento pudesse perceber. Ocorre que Sócrates não era um bebum de quinta categoria. Era o “Doutor”: médico, craque, “filósofo”... e bom de copo, claro. Tinha todas as credenciais de um verdadeiro intelectual. Não passava pela cabeça de seus “amigos” e bajuladores dizer que ele era um viciado. Aliás, que palavra mais feia pra se referir a uma pessoa de sua estirpe. Agora, talvez apenas um transplante de fígado o salve. Bem que algum desses “amigos” poderia se habilitar.
Quanto ao ser humano Sócrates, longe de mim torcer contra ele. Eu, que o vi jogar maravilhosamente, que o ouvi falar com tanta inteligência, só posso desejar-lhe o melhor. E melhoras.

domingo, 28 de agosto de 2011

Quando a civilidade é só para os idiotas

Cena 1

Depois de esperar pacientemente minha vez de passar num cruzamento com semáforo, tive de tirar o pé pra não esbarrar com um motociclista que, sem a menor cerimônia, achou que o sinal vermelho pra ele lhe dava muito mais direito de passar do que o verde pra mim. Pior, antes de cruzar comigo, ele ultrapassou rapidamente vários carros já parados por conta do mesmo sinal vermelho. Não pude deixar de me lembrar que, na minha cidade, a maioria absoluta dos motoristas acha absurdo que um semáforo tenha fotossensor para multar os que avançam o sinal. No momento, nenhum semáforo o tem, porque o contrato da prefeitura com a empresa que administrava os equipamentos de fiscalização eletrônica foi rescindido devido a irregularidades cometidas por essa empresa em outros Estados. Jornalistas engrossam o coro dos que querem o fim dos fotossensores e radares. Políticos fazem disso sua plataforma de campanha eleitoral. E são eleitos. Pra mim, essa gente toda não passa de uma canalha.

Cena 2

No estacionamento do shopping, vejo uma mulher guardando as compras no porta-malas do carro. Sua filha, em pé dentro do carrinho de compras, pega dois sacos plásticos de acomodar frutas ou verduras, não usados, e joga no chão do estacionamento. A mãe faz vista grossa. Enquanto eu cato as coisas de que vou precisar para sair do carro e fazer minhas compras, assisto essa cena e fico indignado. A mulher empurra o carrinho pro lado, acomoda a filha no banco de trás e ignora os sacos plásticos largados no chão. Entra, liga o carro e vai sair. Eu já estou farto de ver cenas desse tipo. Antes que ela saia, pego calmamente os sacos no chão, percorro a lateral direita do carro e prendo os dois sacos na palheta do limpador de para-brisa. Ela demonstra surpresa e eu digo em um tom capaz de atravessar os vidros fechados: “Você esqueceu de recolhê-los”. Ela tenta se explicar: “Eles 'caíram' do carrinho...”. Eu não perco a calma, mas minha paciência se esgota. Abandono o papel de quem acredita que ela “esqueceu”. Respondo: “É, mas não lhe custava tê-los pegado”. Acho que ela fica chateada. Parece-me que ela desprendeu o cinto e saiu do carro para recolher os plásticos. Espero que o tenha feito porque eu não tinha interesse de ficar pra ver. Dei as costas e fui embora.
A essa altura, meus pensamentos eram mais ou menos esses: a classe média é a escória da nossa sociedade. Não dispõe sequer da desculpa de não ter tido oportunidade, de não ter estudado, de não ter dinheiro, de não ter instrução. Age desse modo por grosseria pura e simples, travestida de indolente desleixo. Nesse comportamento está a raiz de vivermos num dos países mais injustos, corruptos e desumanos do mundo. Ah, mas eles vão ouvir. De mim, vão.

Destaque

Todas as famílias da Terra

Grandes foram as civilizações da Mesopotâmia: Suméria, Acádia, Assíria, Babilônia; imortais, os seus nomes: Gilgamés, Sargão, Hamurábi, Assu...